Um amor em construção
Uma vez me perguntaram qual era a minha lembrança mais triste. Vários momentos surgiram na minha mente, difícil saber o pior. Logo em seguida, perguntaram a lembrança mais feliz. Não tinha. Fiz esforço para lembrar de ao menos uma situação, um segundo de extrema felicidade. Não tinha. Aquilo me frustrou de uma forma que tentei recapitular ano por ano da minha vida, para talvez encontrar nem que fosse um breve segundo em que fui plenamente feliz. Ora, me lembro daquela vez em que me senti flutuando no paraíso! Só que estava sob efeito de drogas. Não pude considerar esse fato já que se tratava de uma felicidade induzida.
Puxa vida! Logo eu, que sou tão alegre e vivo sorrindo à toa. Tanta coisa bonita acontece ao meu redor e não sou capaz de descrever nada, nadinha que tenha me impactado positivamente? Mais tarde neste mesmo dia, senti uma angústia se apossar de mim, manifestando-se através do meu corpo ao passo que eu me encolhia na cama. Quis chorar. Não consegui. Agora já não conseguia me impactar nem com as coisas ruins, e isso tornava a situação mais triste ainda. Antes sofrer do que não sentir nada. O vazio pode doer tanto quanto uma ferida, e depois de um certo tempo, assim como as feridas se cicatrizam mas deixam suas marcas, acostuma-se com ele. E assim aconteceu comigo, me acostumei com o meu. Abracei-o. Já não importava se eu possuía lembranças felizes ou lembranças tristes. Depois de certa hora a gente guarda esse tipo de coisa numa caixinha e enterra bem fundo, finge que não existe. Passam os dias, passam as noites, levanta, come, conversa, sorri, se é feliz de mentirinha. Alimenta a carne, ignora o espírito.
Eu vivia assim, até que, quando eu menos esperava, alguém encontrou minha caixinha, sim, a caixinha da felicidade e da dor, e esse alguém pediu licença para abri-la com bastante cuidado. Relutei, afinal, eu a enterrei por um motivo. Desaprendi a sentir, e aquilo que não sabemos nos assusta. Ao mesmo tempo, queria proteger o alguém dos perigos que dentro da caixinha podiam estar. Então, ele me respondeu que também possuía uma caixinha como a minha e que estava cansado de carregar o peso do seu vazio. Sem contar que achou a minha um tanto bonita, e estava disposto a enfrentar o que fosse necessário para que nós dois pudéssemos nos libertar. Admirei sua coragem e aceitei a proposta. Abrimos nossas caixas e aqueles sentimentos guardados se transformaram em fogos de artifício, explodindo cores e luzes, queimando e nos acendendo para a vida. Chorei de alívio. Até que enfim senti de novo! Senti! E foi lindo, ainda é. Compreendi que, mesmo quando achamos que tudo está perdido e que não há mais esperanças para si, que os sentimentos, por mais ruins que sejam, servirão para algo maior em algum momento. Desistir não deve ser uma opção, apenas persistir, pois o que hoje é uma caixinha cheia de emoções confusas e embaralhadas, amanhã pode ser um amor em construção.

