A ditadura da beleza: o impacto do padrão Victoria’s Secret na autoestima dos jovens
Como o padrão Victoria’s Secret se disfarça de ideal de beleza e transforma a juventude em refém de corpos inalcançáveis, apagando a autoestima sob o brilho da perfeição
Ao longo das últimas décadas, a indústria da moda e da publicidade desempenhou papel central na formação de ideais de beleza. Entre os símbolos mais marcantes desse fenômeno está a marca Victoria’s Secret, que, através de seus desfiles e campanhas, consolidou um padrão estético hegemônico, marcado por corpos magros, altos e sexualizados, em consonância com estratégias mercadológicas próprias da indústria da moda íntima. No entanto, esse modelo, vendido como sinônimo de feminilidade e sucesso, insere-se em um contexto social mais amplo que naturaliza padrões estéticos rígidos, contribuindo para a consolidação do que pode ser entendido como uma “ditadura da beleza”, com impactos na construção da autoestima de jovens ao redor do mundo.
Durante anos, os desfiles da Victoria’s Secret foram mais do que simples eventos de moda, foram espetáculos de poder estético. Modelos desfilavam com asas de anjo, corpos esculpidos e sorrisos calculados, vendendo não apenas lingeries, mas um ideal de perfeição feminina que atravessou oceanos e telas.
Esse padrão, amplamente disseminado pela mídia e reforçado pelas redes sociais, não atua de forma isolada, mas dialoga com fragilidades emocionais, lacunas na formação crítica e na educação midiática. Nesse cenário, jovens cresceram em um ambiente no qual a aceitação social e o amor-próprio passaram a ser frequentemente associados à aparência física e à validação externa.
A filósofa Naomi Wolf, em O Mito da Beleza (1991), já denunciava como a indústria cultural transforma o corpo feminino em instrumento de controle social. Para Wolf, quanto mais as mulheres se dedicam à busca pela aparência “perfeita”, menos tempo e energia lhes restam para ocupar espaços de poder. Essa lógica se aplica à geração que cresceu vendo os desfiles da Victoria’s Secret: meninas que aprenderam cedo que o valor pessoal estava no corpo e não na voz.
Nas redes, a ditadura da beleza encontrou um novo território para se fortalecer. Se antes os padrões eram impostos de cima para baixo, das passarelas para o público, agora são reproduzidos de maneira horizontal, entre os próprios usuários. Cada selfie, curtida e comentário se transforma em uma forma de validação estética, e a busca pela aceitação se disfarça de liberdade de expressão. O “padrão” já não precisa ser dito: ele se mostra em silêncio, nas imagens que dominam as telas e moldam o que é considerado belo.
O documentário Victoria’s Secret: Angels and Demons (2022) expõe os bastidores dessa idealização. O que parecia empoderamento era, na verdade, um império construído sobre dietas rigorosas, cobranças abusivas e corpos moldados à exaustão. Diversas ex-modelos relatam o impacto psicológico de viver em função de um padrão impossível, revelando o custo humano do glamour. Essa cultura ultrapassou as passarelas e passou a influenciar diretamente o comportamento de jovens que cresceram acreditando que ser bonita é ser magra e que a autoestima depende da aprovação visual.
Os efeitos desse modelo são visíveis em números alarmantes. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) “um em cada sete jovens de 10 a 19 anos sofre de um transtorno mental” Organização Mundial da Saúde. Em paralelo, estudos internacionais indicam que os transtornos alimentares entre crianças e adolescentes cresceram significativamente nas últimas décadas. JAMA Network+1 A culpa desse cenário pode não estar apenas na biologia, mas na cultura estética que transforma o corpo em mercadoria.
A promessa de perfeição, vendida como empoderamento, esconde o mesmo mecanismo de dominação que Wolf identificou há mais de três décadas. A beleza, apresentada como liberdade de escolha, ainda opera como ferramenta de controle e exclusão. A diferença é que agora o palco não é mais a passarela, é a tela do celular.
Desconstruir essa “ditadura” exige mais do que campanhas de diversidade: é preciso educar para o olhar crítico, ensinar que o corpo não precisa ser moldado, mas acolhido. A beleza não deve aprisionar e sim libertar. Enquanto a juventude continuar medindo o próprio valor com a régua da perfeição alheia, a ditadura da beleza continuará reinando disfarçada de sonho, mas sustentada por inseguranças reais.

