Faculdade não dá futuro?
Um discurso que se tornou popular nos últimos anos foi que “faculdade não dá futuro” que “não paga as contas” e outras falas desse tipo. Afinal, isso é verdade ou não? Antes de responder a pergunta inicial, é necessário compreender o contexto da educação no Brasil. O presente artigo realiza um debate sobre como esse discurso que busca desvalorizar o ensino superior faz parte de um contexto histórico que está enraizado no país, onde a elite se privilegiou do monopólio da educação.
Quando os portugueses chegaram aqui em 1500, os jesuítas aculturaram os indígenas. Nesse período inicia-se o dualismo educacional, porque os jesuítas também eram responsáveis pela educação dos filhos dos nobres que viviam no Brasil. Mas enquanto catequizavam e colonizavam os indígenas, aos nobres era ensinada gramática, filosofia, latim, com o intuito formar líderes religiosos e preparar aqueles que posteriormente iriam para outro país. Nas Reformas Pombalinas, houve a expulsão dos jesuítas. O modelo de ensino seriam as aulas régias, com professores pagos pela Coroa, visando uma educação laica e sem interferência da igreja, mas quem continuava se beneficiando desse modelo de ensino? Para a surpresa de ninguém, as elites.
Negros que eram livres não tinham condições de pagar pelas aulas e precisavam trabalhar desde cedo para se manter, os escravizados não tinham acesso à educação pois eram vistos apenas como mão de obra, e para os indígenas o ensino se tratava de um ato de submissão, eram proibidos de falar a língua materna e o estado queria integrar eles a sociedade e aos costumes portugueses. Portugal não estava interessado em investir na educação da sua colônia, queria manter a elite com o monopólio do saber. Até a chegada da Família Real, em 1808, o Brasil era proibido de ter universidades, quem estava interessado em fazer ensino superior precisava atravessar o atlântico para estudar.
Por questões políticas e econômicas a Família Real e um grande número de portugueses vieram para o Brasil, e o imperador precisou investir no desenvolvimento do país, foi assim que a primeira instituição de ensino superior foi construída em 1808. Ainda sim o ensino privilegiou majoritariamente homens brancos de família rica. Já no século XX, a Constituição de 1936 garantia um ensino primário obrigatório e gratuito, um avanço para as pessoas da época, mas ainda era uma barreira para acessar o ensino superior. No período da Quarta República, o dualismo educacional deixou claro a negligência do estado com o ensino das classes mais baixas.
Em 1909, se oficializou o ensino profissionalizante no Brasil, que formava a mão de obra necessária para suprir necessidades do sistema econômico, e o ensino acadêmico, direcionado a elite que aprendia sobre filosofia, sociologia e conteúdos que estimulavam pensamento crítico. Com a Constituição de 1988 e as emendas constitucionais de 2009, que foram mudanças feitas na Constituição, o acesso à educação ficou mais acessível e ampliou o ensino gratuito dos 4 aos 17 anos de idade. Agora temos universidades públicas e programas como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o vestibular, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), que concederam maior acesso às universidades.
Contextualizados a respeito da educação no Brasil, retomamos a pergunta feita no início. Faculdade não dá futuro? Acredito que a resposta apropriada seja não, afinal, a faculdade pode ser o motivo de você conseguir um emprego melhor e ter mais oportunidades na carreira. Esse tipo de fala é de certo modo irônico, porque, se faculdade não importa, por que a elite sempre fez questão de colocar seus filhos nas melhores escolas, melhores faculdades, fizeram intercâmbios para aprender o máximo sobre outras línguas, políticas, economias. Por que tentaram privar as classes mais baixas de ter acesso a esse estudo. Segundo o relatório Education at a Glance 2025, feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), brasileiros de 25 a 64 anos que possuem o ensino superior completo ganham em média 148% a mais do que aqueles que possuem ensino médio completo.
Um fato é que, a faculdade não garante emprego, ter um diploma não é sinônimo de carreira bem sucedida ou contas pagas, mas se com a faculdade as coisas já estão difíceis, sem, fica pior. Fazer uma faculdade vai além de ter um diploma. Em concursos públicos quanto maior o grau de escolaridade, maior o salário. Estar em uma universidade pode proporcionar oportunidades de conhecer pessoas que futuramente serão capazes de ajudar você, o famoso networking. Ela possibilita você sair da bolha e observar a sociedade por uma perspectiva diferente, amplia as suas chances de entrar em um mercado de trabalho e oferta conhecimento, algo que tentaram negar a classe baixa por muito tempo. Existem pessoas que sem estudo conseguiram mudar de vida, e fizeram isso com muito esforço, mas elas são as exceções, não a regra. Essas mesmas pessoas vão garantir que seus filhos tenham acesso à educação, vão incentivá-los a estudar, fazer faculdade, porque elas sabem a importância do estudo.
A desvalorização do ensino superior é proposital, as universidades ficaram acessíveis à classe popular, deixando de ser algo exclusivo dos ricos nas últimas décadas. A elite está interessada em mão de obra, não em uma população que pense por si mesma. Um discurso popular atualmente é de coachs minimizando a importância do ensino superior para vender cursos que visam o empreendedorismo e o ganho rápido, combinando com o discurso de alguns influencers digitais. Em um levantamento feito pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), 34% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos precisaram adiar o plano de iniciar um curso superior em 2025 por estar endividado com bets e plataformas de cassino virtuais. Por lei, o Estado não pode proibir o acesso ao ensino superior, mas pode dificultar. Esses são alguns meios de fazer a faculdade se tornar menos popular, desvalorizada aos olhos da população, assim ela pode se tornar elitizada novamente e a massa popular volta a ser facilmente manipulada e com menos chances de ter uma vida fora do trabalho exploratório que sempre ofereceram.
Esse tipo de discurso, que faculdade não dá dinheiro, é difícil de ser debatido, porque em um país onde a taxa de pobreza é de 23,4%, não é difícil convencer as pessoas a desistirem de investir na educação. Quando alguém que trabalha oito horas por dia, estuda de noite, precisa se alimentar e pagar o aluguel com um salário mínimo, discursos desse tipo são o estopim para abandonarem o sonho da faculdade e acreditarem que não vão conseguir mudar de vida seguindo esse caminho. Eu diria que a pergunta certa não é se a faculdade dá futuro, e sim quem são as pessoas que se beneficiam com uma população que acredita nisso. Paulo Freire tinha consciência dessa realidade ao dizer “o sistema não teme o pobre que passa fome, teme o pobre que sabe pensar”.

