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A moda fitness e a reafirmação social

Você já parou para pensar nos preços dos alimentos que compramos no supermercado? Ou por que surgiram tantas academias nos últimos anos? Ou ainda, qual será a razão das roupas de ginástica estarem ganhando cada vez mais espaço nos cabides das lojas? Pode parecer, mas não é coincidência que o aumento no preço dos alimentos saudáveis tenha se dado ao mesmo tempo que o estouro das academias e da “moda fitness” nas lojas de roupas.
Podemos dizer que a história da humanidade acontece como um grande círculo, no qual padrões tendem a ser repetidos, claro que com as características específicas de cada período, e reproduzidos ao longo dos anos. Por exemplo, na Grécia Antiga, século V e IV a.C, o corpo forte e definido dos homens e o esbelto e bem cuidado das mulheres era cultuado como o padrão perfeito a ser atingido. É só dar uma olhada nas esculturas dos deuses gregos!
Apesar dessa busca pelo corpo perfeito, não eram todos que conseguiam viver dessa maneira. Apenas os nobres, ou os “cidadãos” como eram chamados, podiam exercer esse direito. Como não tinham que se preocupar com trabalho e o sustento de suas casas, passavam horas e mais horas no “gymnasium”, uma espécie de academia pública a céu aberto, treinando e praticando exercícios físicos.
Trazendo para o século 21, fica evidente como a moda fitness tem impactado a vida das pessoas. Academias em todas as ruas e esquinas, suplementos de proteína, roupas e acessórios sendo lançados a cada temporada e até produtos estéticos milagrosos são alguns exemplos da forma que a indústria consegue atingir a sociedade.
A questão é que, diferente da Grécia Antiga, a criação da internet e, consequentemente, a ampliação dos meios de comunicação, faz com que o alcance das redes sociais aconteça de uma forma nunca vista antes. Com elas, a informação é capaz de ultrapassar barreiras geográficas, linguísticas e sociais.
A partir dessa rotina intensa de treinos e bem estar, compartilhada por vídeos curtos com roupas estilosas e músicas famosas, padrões estéticos são criados em nossa sociedade. Padrões estes que, para meros mortais de classe média e baixa, são quase impossíveis de serem alcançados com a tradicional rotina de trabalho e/ou estudo.
Mas você pode se perguntar como a implantação do mundo fitness acontece, muitas vezes de forma imperceptível, na sociedade? É mais simples do que parece! A primeira coisa que precisa ser entendida é que a indústria fitness não é isolada de outras indústrias que conhecemos, ela está e sempre estará associada à indústria alimentícia, farmacêutica (que abrange remédios e cosméticos) e a da moda. Se tornando possível, assim, perceber a abrangência de seu poder.
No mundo contemporâneo, investir em saúde se tornou um símbolo de riqueza e status social, uma vez que nem todos possuem os recursos necessários, como tempo e dinheiro, para serem direcionados a esse fim. Carros luxuosos, jóias e casas que parecem castelos saíram um pouco de cena e deram lugar aos halteres e anilhas de academias, suplementos proteicos e multivitamínicos.
Demonstrar o tempo investido no corpo se tornou tão importante quanto mostrar o que se tem. “Como é o caso do bilionário Jeff Bezos, dono da Amazon, que, no ano de 2022, mudou completamente sua rotina”. Diminuindo as horas de trabalho e aumentando a rotina de treinos e sono, assim como alterações em sua alimentação, acelerando o processo de definição dos músculos do corpo, com o auxílio de suplementos protéicos.
Diferentemente de bens materiais, o corpo saudável não pode ser comprado em lojas de departamento ou entregues de algum site da internet. Propagandas com remédios milagrosos, suplementos que prometem o aumento rápido de massa muscular e muitas outras coisas, divulgadas por influenciadores digitais e falsos especialistas de internet, impulsionam “o sonho de se obter o corpo perfeito e incentivam o uso dessas substâncias sem pensar no efeito negativo que o mau uso, sem o acompanhamento especializado”, trará ao corpo e até mesmo à mente das pessoas.
Por fim, a indústria alimentícia não fica atrás uma vez que modas como “gluten free” (zero glúten) e zero lactose, impactam diretamente nos preços dos produtos, fazendo com que os alimentos mais saudáveis se tornem mais caros e os menos saudáveis, mais baratos. Causando assim, uma inversão em quais alimentos são acessíveis para as classes sociais mais baixas.
É necessário abrir os olhos, obter conhecimento, e estabelecer filtros no conteúdo que se consome nas redes sociais, a fim de evitar cair nessa “teia de aranha” que atrai cada vez mais pessoas para seu meio. Uma vez que a história sempre segue em frente, repensar nossas motivações e os padrões que são estabelecidos se torna imprescindível para mostrar que os “deuses gregos”, na verdade, são apenas humanos.

Cecília Almeida
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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