Mulheres no futebol: a verdade por trás dos ataques de ódio direcionados a mulheres no esporte
Mulheres no futebol: a verdade por trás dos ataques de ódio direcionados a mulheres no esporte
Por Nanda Deda e Sofia Rezende
Tradicionalmente, o futebol é um esporte praticado e dominado por homens, porém, desde o final da década de 1970, quando a lei que proibia mulheres de praticar o esporte foi revogada, a modalidade feminina vem crescendo. Com a conquista da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2007 pela seleção feminina e, principalmente pela obrigatoriedade exigida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a partir de 2019, em que times da Série A do campeonato brasileiro precisam manter um time feminino, as mulheres vêm ganhando cada vez mais espaço no esporte, ocupando funções como jogadoras, árbitras e narradoras.
No entanto, mesmo com a constante desconstrução da imagem de que só homens devem praticar ou comentar o esporte, as mulheres nessas funções ainda enfrentam preconceito, fruto de uma sociedade machista, que descredibiliza sua atuação e perpetua desigualdades, principalmente a salarial. A arbitragem feminina e a narração esportiva feita por mulheres exemplificam bem essa realidade, mostrando como a discriminação, tanto aberta quanto velada, ainda passa despercebida.
Quando se trata de mulheres no meio da arbitragem, elas sofrem críticas e cobranças muito mais duras e maldosas do que os homens, mesmo quando ambos cometem erros semelhantes. Temos, por exemplo, o caso do árbitro Juliano José, acusado de falas machistas contra jogadoras do Campeonato Paulista 2025. Tal atitude levou a uma suspensão preventiva do profissional pelo Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo-SP. Essa situação revela não só o machismo estrutural do esporte, mas também evidencia como as mulheres são expostas a um ambiente hostil, com críticas desproporcionais, oriundas das redes sociais, quando comparadas aos colegas de trabalho homens.
A cobrança exagerada sobre as árbitras mostra um preconceito disfarçado, já que não está relacionado ao desempenho delas. Afinal, os homens também erram com frequência, mas recebem críticas muito menores, o que reforça um machismo oculto. Esse preconceito não só atrapalha o crescimento das mulheres na profissão, como também prejudica o futebol, porque impede a diversidade que tornaria o esporte mais justo e qualificado.
Já quando se trata de narração esportiva, o cenário não muda. A presença de narradoras mulheres no futebol é algo relativamente recente e tem sido alvo de críticas baseadas também em preconceito de gênero. Alguns torcedores criticam a narração feita por mulheres por “não combinarem com o estilo tradicional”, também existem comentários que falam que falta emoção e experiência. Entretanto, esses comentários são na maioria das vezes réplicas do preconceito e desconforto com vozes e perspectivas que antes não eram ouvidas.
Fora isso, a maioria desses comentários vem de homens que nem acompanham jogos narrados por mulheres, espalhando opiniões baseadas em discursos de “hype” e rejeição coletiva. Essas falas acabam descredibilizando o trabalho realizado pelas narradoras e dificulta a presença feminina no meio futebolístico. A resistência cultural, junto com preconceitos abertos, prejudicando que mulheres narradoras sejam reconhecidas como profissionais competentes e respeitadas, mesmo estando plenamente qualificadas para o trabalho.
Esse recorte feminino na arbitragem e na narração brasileira evidencia um problema maior, em que a descredibilização das mulheres nas profissões relacionadas ao mundo esportivo, estão entrelaçadas ao machismo e a cultura patriarcal.
Em suma, a cobrança excessiva e o preconceito contra mulheres na arbitragem e na narração esportiva derivam de um machismo enraizado, o que torna necessário um combate mais firme e direto, partindo das federações. Mulheres enfrentam um julgamento mais severo simplesmente por desafiarem padrões históricos, enquanto os homens que ocupam as mesmas posições profissionais cometem os mesmos erros e dificilmente são cobrados tão duramente. Para evoluir e se democratizar, o futebol, e seu público, devem reconhecer e valorizar a presença dessas mulheres, não apenas como símbolos, mas como profissionais competentes e indispensáveis para o esporte.

