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O fast fashion nas passarelas do Deserto do Atacama

Roupas trocadas todos os meses, tênis de marcas falsificadas e um consumo cada vez mais acelerado fazem parte da rotina de grande parcela da sociedade contemporânea. Para muitos, isso parece ser apenas um hábito comum, quase banalizado. Para outros, no entanto, essa lógica se converte em um grave problema ambiental que ganha dimensões globais. A moda, frequentemente vista como frívola, é, na verdade, um termômetro social poderoso, revelando os impactos de um sistema produtivo moldado pela velocidade e pela obsolescência. Este artigo analisa como o Deserto do Atacama se tornou o símbolo das consequências do fast fashion e dos danos ambientais que acompanham esse modelo de vestuário.

A lógica da produção acelerada não surgiu do nada. A Revolução Industrial marcou o início da produção de roupas em larga escala, permitindo que tecidos e peças fossem fabricados rapidamente e a custos cada vez menores. Décadas mais tarde, durante a crise do petróleo dos anos 1970, esse cenário se intensificou, abrindo caminho para o modelo de consumo que hoje conhecemos como fast fashion. Esse sistema se popularizou pelo mundo e, no Brasil, ganhou força sobretudo por meio de grandes varejistas, que oferecem roupas com preços acessíveis, variedade constante e coleções que mudam semanalmente. A promessa de “estar sempre atualizado” com tendências recentes contribuiu para que o hábito de compra se tornasse mais frequente, alimentando um ciclo que depende diretamente da produção rápida, do baixo custo e do descarte acelerado.

Atualmente, a indústria da moda é uma das que mais crescem no mundo e também uma das que mais poluem. É considerado o segundo setor mais poluidor do planeta, perdendo apenas para a indústria petrolífera. No Brasil, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT) aponta que, somente em 2019, foram produzidas entre 1 milhão e 32 mil toneladas de vestuário, refletindo o alto consumo nacional e evidenciando a magnitude desse mercado.
Segundo uma publicação feita pelo Jornal da USP no Ar, a professora Francisca Dantas Mendes, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e coordenadora do NAP Têxtil, explica que o fast fashion funciona como um ciclo de fabricação acelerado, em que produtos são feitos, consumidos e descartados em pouquíssimo tempo, resultado tanto da baixa qualidade das peças quanto das mudanças constantes nas tendências de moda. Ela destaca: “Como não há garantia de volume de produção, as empresas terceirizadas mantêm poucos funcionários. Quando a demanda aumenta, ocorre a quarteirização e até a quinteirização dos serviços, muitas vezes de forma informal e com remuneração ainda mais baixa.”

A redução do ciclo de vida das roupas está diretamente ligada às matérias-primas utilizadas. Para baratear a produção, a indústria depende majoritariamente de fibras químicas, como o poliéster, derivado do petróleo e amplamente usado na fabricação de tecidos. Essa fibra, no entanto, leva cerca de 200 anos para se decompor, o que significa que a maior parte das roupas que descartamos hoje continuará existindo muito depois de nós. Durante o uso cotidiano e principalmente nas lavagens, partículas microscópicas desses materiais se desprendem, viajando por mares até alcançarem animais marinhos e, em última instância, seres humanos, já que microplásticos vêm sendo encontrados inclusive na água que consumimos diariamente.


O ciclo acelerado de produção e descarte do fast fashion gera enormes quantidades de resíduos têxteis, e o Deserto do Atacama tornou-se o exemplo mais visível desse problema. Toneladas de roupas descartadas, sobretudo vindas dos EUA, Europa e Ásia, chegam ao porto de Iquique e, quando não são revendidas, acabam despejadas no deserto, formando uma montanha de mais de 60 mil toneladas já identificadas por satélites. Esse acúmulo afeta diretamente comunidades vulneráveis da região, provoca incêndios de fibras sintéticas e libera gases tóxicos, o que levou a Organizações das Nações Unidas (ONU) a classificar ,em 2021, a situação como uma “emergência ambiental e social”. Por ser zona franca, Iquique é uma cidade costeira no norte do Chile que recebe grande volume de peças usadas sem controle adequado, o que intensifica o problema e expõe famílias à poluição.


O cenário mostra a urgência de repensar o consumo e a produção de moda, exigindo responsabilidade coletiva, políticas públicas e mudanças de hábitos para evitar que o Atacama continue sendo transformado em um depósito de resíduos do fast fashion.

Mariana Fraga
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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