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Os impactos do streaming no mundo da música

Popularizado na década de 2010, impulsionado por plataformas como o Spotify (2006) e pela popularização da banda larga, o streaming é uma tecnologia que permite assistir a vídeos, ouvir músicas ou acompanhar transmissões ao vivo pela internet, sem a necessidade de baixar o arquivo completo para o seu dispositivo. A disseminação do streaming transformou permanentemente a forma como ouvimos música; democratizando o acesso, facilitando a descoberta de novos artistas e estabeleceu ferramentas para o usuário montar as suas próprias listas de reproduções com poucos cliques, o que antes necessitaria de horas garimpando vinis e CDs.


Do ponto de vista do consumidor, o streaming oferece um preço mais acessível, praticidade e variedade infinita, o que o torna muito mais interessante para o público geral do que adquirir o produto físico ou esperar que a música escolhida seja tocada no rádio. Além disso, a lógica algorítmica cria trilhas sonoras personalizadas para cada momento do dia, tornando a experiência do usuário com a tecnologia extremamente responsiva. No Brasil, os últimos dados divulgados revelam que os serviços de streaming representaram 87,6% do faturamento das receitas do setor musical no ano de 2024, colocando o país na nona posição da lista de maiores consumidores do mercado musical do mundo e comprovando sua popularidade entre os consumidores. Entretanto, a comodidade segue com o risco da perda afetiva e material em relação à música. Fomentando um mercado cada vez mais focado no consumo, que deturpa o valor simbólico originalmente projetado para o álbum e fazendo com que a música perca seu valor artístico. Reduzindo a arte a um produto medíocre pensado somente para o consumo rápido, movido por uma indústria cultural gananciosa.


O impacto se torna ainda mais evidente para os artistas, especialmente os independentes. Uma pesquisa realizada na Europa em julho de 2024 pela IAO (International Artist Organization), um guarda-chuva de organizações de artistas do continente que entrevistou 9.542 artistas em 19 países da União Europeia, revelou que 69,1% dos artistas entrevistados não estavam satisfeitos com os ganhos do streaming, e que apenas 44,2% dos entrevistados possuíam ter contrato com uma gravadora, enquanto 55,8% são nomes da música independente. As plataformas pagam centavos por reprodução, e muitos músicos precisam de milhões de streams para gerar uma renda satisfatória. O modelo favorece quem já é famoso, quem já possuí grande exposição, e, por isso, consegue alcançar mais ouvintes e atingir números muito maiores de reproduções. A suposta democratização, na prática, se converte em uma luta desigual, na qual não vence aquele que tem a melhor obra, mas sim quem melhor se adapta ao jogo dos algoritmos, prejudicando a qualidade da música como produto.


Graças a esse fator, a lógica algorítmica influencia cada vez mais a criação musical, impulsionando músicas de menor duração e incentivando a audição ansiosa. Muitos artistas passam a compor pensando em agradar a plataforma, produzindo músicas mais curtas para não serem ignoradas, introduções mais rápidas para não perder a atenção do ouvinte e refrões de impacto imediato. Isso empobrece a diversidade estética do mercado, tornando-o previsível, padronizado e domesticado.


Cabe a nós, então, enquanto consumidores, o discernimento para apoiar artistas e as opções alternativas para o consumo da música e da arte, participando dos shows e eventos realizados por artistas locais e incentivando a compra de música diretamente da plataforma do artista. Assim, tornamos as medidas dos serviços de Streaming menos predatórias, além de fortalecer novas obras e a relação afetiva com a arte, dando maior liberdade para experimentalismos.


Em última análise, cabe também às empresas repensar seus modelos de remuneração e transparência, e ao público valorizar e apoiar os artistas que desafiam a lógica da homogeneização. Mesmo que muitas vezes nos percebamos como vítimas de uma indústria cultural, que manipula nossa percepção da mídia entregando cada vez maior imediatismo, com assustadora acessibilidade e um conteúdo cada vez mais curto e engessado, é sobre reconhecer a atual condição do mercado musical e adaptar a forma de que consumimos entretenimento em busca de uma maneira consciente, mantendo-se adeptos pela luta dos direitos que carregamos tanto como consumidores, quanto como artistas.

Pedro Leão
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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