Do superficial ao interesse público: a influência na política consolidou Anitta como referência no cenário brasileiro
A politização da cantora nos últimos anos prova que o sucesso vai além de músicas de sucesso, mas abrange a participação nacional e internacional em assuntos pertinentes.
Nas redes sociais, as pessoas tendem a acompanhar celebridades que não oferecem conteúdos que agreguem algo útil ou de interesse público. Essa atenção frequentemente se resume a ditar padrões estéticos e a promover tendências de consumo. Apesar dessa popularidade superficial, é inegável que essas figuras públicas detêm uma alta projeção de conteúdos e ocupam grande parte do imaginário do público. A crescente midiatização da política, na qual o sucesso midiático se confunde com o engajamento democrático, transforma o debate político em performance e consumo). Utilizar dessa magnitude não apenas para entretenimento, mas como oportunidade de promover discussões sobre temas relevantes, políticos e de interesse social, se torna uma questão, uma vez que muitos artistas têm receio da perda do engajamento.
Em um mundo onde a informação e a influência caminham lado a lado, a presença de uma artista tão popular quanto a Anitta no âmbito político e ambiental ganha destaque não apenas pelo impacto imediato, mas pelo exemplo que oferece para o uso responsável da fama. A cantora passou de uma postura inicial cautelosa em eleições anteriores a uma voz ativa que incentiva o engajamento político, denuncia injustiças sociais e defende causas ambientais, mostrando que celebridades têm o poder de ampliar debates e fomentar a participação social.
Mas a vida pública da artista de Honório Gurgel, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro-RJ, que se consolidou em 2013, nem sempre foi assim. Durante as eleições de 2018, Anitta enfrentou forte cobrança de posicionamento. Inicialmente, optou por não aderir ao movimento “#EleNão” contra Jair Bolsonaro, alegando que sua arte não era política. Não demorou para que a cantora fosse duramente criticada, inclusive pelos próprios fãs, culminando em um vídeo discreto de repúdio ao então candidato, que mais tarde traria acusações de oportunismo.
A repercussão negativa serviu como motivação para a cantora. Sentindo na pele a pressão de engajar-se politicamente enquanto figura pública, Anitta passou a estudar a política do país e repensar seu papel na sociedade, e logo transformou essa decisão estudada em ação efetiva. Em 2020, durante a pandemia, se dedicou a realizar lives para discutir política com especialistas, como a analista Gabriela Prioli, e até se envolveu em um embate com o deputado federal, Felipe Carreras, sobre direitos autorais, que gerou a retirada de uma emenda polêmica da pauta legislativa.
A sua passagem na cena política não passou despercebida, e se gerou desconforto nos planaltos de Brasília, é sinal de que surtiu algum efeito. Sua imagem passou de figurante à protagonista no cenário brasileiro, usando seu alcance para discutir temas como feminismo, direitos da comunidade LGBTQIAPN+ e políticas públicas. No contexto ambiental brasileiro, Anitta também não hesita em cobrar respostas e ações claras, como na crise das queimadas no Pantanal em 2020, quando criticou incisivamente o presidente da República pela omissão.
Em 2022, Anitta apoiou campanhas para engajar jovens na política, incentivando a obtenção do título de eleitor, e foi uma voz ativa na eleição presidencial, apoiando o candidato Lula em meio a um clima violento e polarizado. Seu papel na mobilização e na defesa de valores democráticos contribuiu para aumentar a participação política de um público mais novo, mas engajado e fundamental para o fortalecimento institucional do país, capaz de mudar o cenário presidencial em crise, como ocorrido naquele ano.
Finalmente, em 2025, Anitta ampliou seu leque de atuação política ao adentrar ainda mais em questões de sustentabilidade, trazendo para seu público assuntos ligados à preservação do planeta. No dia 15 de outubro, se encontrou com o Rei Charles III em Londres, em um evento promovido por uma instituição fundada pelo monarca em 2020, voltada à promoção da bioeconomia circular baseada na natureza. Nas redes sociais, enfatizou a urgência da preservação ambiental, destacando a relação dos povos indígenas com a natureza como um exemplo essencial para garantir o futuro do planeta.
O encontro que reuniu cientistas, empresários e celebridades em busca de soluções sustentáveis, reforçou o compromisso da artista com causas ambientais globais através de sua influência a nível internacional. Ainda neste ano, Anitta, acompanhada de Luciano Huck, durante visita à aldeia Piaraçu, na Terra Indígena Capoto-Jarina no Xingu, aproveitou a oportunidade para discutir assuntos de grande relevância, como os direitos indígenas e a Conferência das Partes (COP 30), que aconteceu em Belém (PA), no dia 1º de novembro.
Foi ainda atração no Global Citizen Amazônia, evento realizado no Estádio Olímpico do Pará, dias antes da COP30. Sua performance foi mais que uma sequência de sucessos e coreografias, mas uma homenagem especial à cultura paraense, com figurino inspirado nas florestas. No encerramento, Anitta subiu ao palco com a família do Cacique Raoni, destacando a importância dos povos originários na proteção da Floresta Amazônica. “A floresta tem voz e essa voz vem dos povos que a protegem há séculos. Que esse canto final seja um chamado a todo mundo, porque proteger a Amazônia é proteger a vida”, afirmou a artista.
O fato é que o posicionamento de Anitta ao longo dos anos mostra seu amadurecimento para finalmente tratar com propriedade temáticas globais urgentes e firmar seu compromisso com a sustentabilidade, estimulando debates e engajamentos em temas que vão além da política partidária, atingindo uma parcela significativa da população que a acompanha nas redes sociais. Ser reconhecida como a artista brasileira com maior influência política demonstra que seu trabalho transcende o mundo do entretenimento e assume um papel de impacto social e político.

