Repaginada e moderna: O retorno da extrema magreza
Os anos de 2020-2025 foram marcados pelo retorno de antigas tendências fashion, em especial, as que dominaram os anos 2000, que retornam à mídia repaginadas e caricatas. Junto às calças de cintura baixa, croppeds, penteados e o enaltecimento das passarelas dessa década, retorna também com força total, a extrema magreza.
A estética de rostos extremamente marcados e corpos com ossos proeminentes foi tendência nas passarelas e na mídia dos anos 1990 até os anos 2000. Essa cultura tóxica de magreza se caracterizava por subalimentação, má nutrição, e, em alguns casos, pelo uso de opióides para resultados imediatos. “Nada tem um gosto tão bom quanto estar magra” a frase dita pela modelo dos anos 90, Kate Moss, ilustra como a indústria da moda da época valorizava a magreza e a falta de alimentação.
O termo “heroin chic” surge ainda com Kate Moss nos anos 90, usado para apelidar modelos com visual andrógino, magro e “desleixado”, perfil associado ao uso de drogas. O cenário da moda mudou durante os anos 2010, com o surgimento de um movimento que valorizava os diferentes tipos de corpos, pesos e formatos, abrindo espaço para modelos plus size nas passarelas, capas de revista, propagandas e protagonismo na mídia ao redor do mundo. Quando os corpos curvilíneos foram aos poucos normalizados, a ascensão da família Kardashian/Jenner solidificou a presença semi-normalizada de corpos com curvas. Essa era a referência de beleza feminina na época.
Durante toda a década de 2010-2020 escutamos sobre inclusão, corpos reais e diversidade. Agora, esse discurso diminui cada vez mais. O desengordar retorna aos holofotes com uma conotação “medicinal”, e é nas redes sociais que o cenário se expande. O autocuidado se populariza e uma quantidade exacerbada de influencers utilizam esse tema para expandir um movimento pró-magreza e que usa o “self-care” como máscara para práticas perigosas e tóxicas. Em uma matéria para o Portal Drauzio Varella, a nutricionista Bárbara Palanca explica que “a mídia e as redes sociais impõem o corpo magro como sinônimo de perfeição, gerando insatisfação corporal e distorção da imagem, além de desencadear transtornos como ansiedade, depressão e baixa autoestima”.
Influenciadores digitais assumem posições de protagonismo, e iniciam sua jornada de influência ao levar aos seus seguidores métodos para serem mais saudáveis, em alguns casos e sem perceber, os guiam a perda extrema e desnecessária de peso, ou a um distúrbio alimentar. A antiga rede social Tumblr é um exemplo do impacto da influência das redes sociais na vida comum, houve um era em que haviam fóruns online voltados para discutir e propagar distúrbios alimentares, suas transmissões deixavam claro que o corpo perfeito era o magro. As pessoas presentes nesses fóruns trocavam dicas de alimentação saudável (desnutrição) e exercícios físicos (excessivos e desnecessários). O Tumblr acabou, mas esse discurso retorna aos poucos e com mais força nos anos de 2020-2025.
Na indústria, figuras influentes encontram meios discretos e mais rápidos para acelerar o processo de emagrecimento por meio de prescrições médicas Off-label. Emerge a fama, dentre aqueles que podem pagar, o uso dos medicamentos Ozempic e Mounjaro, medicamentos de tratamento da diabetes. Além de cuidados com a diabete, o Ozempic e o Mounjaro possuem efeitos colaterais que inibem o apetite, diminuem a produção de colesterol e provocam o emagrecimento acelerado com uma série de efeitos colaterais alarmantes. Para o público que os assiste os influenciadores contam que emagreceram com disciplina, foco, alimentação saudável e exercícios físicos, quem consome o conteúdo desses influencers e colocam em prática suas dicas, questionam como, mesmo seguindo suas dicas, continuam com a mesma imagem e recebem sempre a mesma resposta: “Te falta foco e determinação”.
Ser magra, de modo saudável, se torna cada vez mais inacessível, para alguns a falta de dinheiro, status e indisponibilidade para cuidar de si dificulta o processo de emagrecimento saudável, causa frustração e em alguns casos, distúrbios de imagem. A magreza então volta a ser relacionada ao sucesso, à riqueza e aos bons modos. De acordo com um estudo da Universidade Federal Fluminense “Quando o tema é perda de peso e, principalmente, acesso à saúde, são as pessoas com maior poder aquisitivo que saem na frente”. As celebridades internacionais e nacionais, que agora posam nas redes, passarelas e tapetes vermelhos, possuem aparência esquelética que reflete a mudança da imagem feminina aceita na mídia, e influencia cada vez mais o público popular a aderir à magreza extrema. As medicações e dietas sem receita se tornam pautas quentes. Mas a comercialização da magreza extrema como vislumbre de saúde é, talvez, a pauta mais fria entre elas.
Para além das influencers e passarelas, a popularização do gênero musical coreano, K-pop, exerce vasta influência sob a imagem feminina, visto que 80% das cantoras coreanas mundialmente famosas têm corpos magros e esqueléticos, chegando a pesar 40 quilos aos 25 anos de idade. A Coreia, sendo um país extremamente gordofóbico, mantém um padrão de magreza visto como parte da identidade visual das famosas.
Em entrevista para o canal do YouTube Asian Boss, a ex-idol do grupo Crayon Pop, Way, explica que a parte mais difícil de ser idol de kpop eram as dietas que restringem certos alimentos e horários para comer, e passar o dia inteiro praticando danças que deixavam suas pernas com hematomas e inchaços. As dietas absurdas, exercícios físicos excessivos e medicamentos que aceleram a perda de peso e prejudicam intensamente a saúde mental e física das pessoas inseridas nesse cenário, essa cultura é pouco criticada, mas se populariza rapidamente com a globalização.
Em 2015, a cantora Momo, revelou em live stream que foi orientada a perder peso para que permitissem sua apresentação no programa que daria início a sua carreira. Por 11 dias, sua dieta se baseou no consumo de gelo e água, combinados aos intensos ensaios de dança e outros compromissos “Enquanto dormia, chorei porque estava com medo de poder levantar ou não no dia seguinte”, lembra a integrante do TWICE.
A globalização transforma essa ética de magreza, em uma lei. E, sem perceber, a internet aplaude e enaltece o emagrecimento exacerbado. Celebridades cada vez mais magras são consideradas musas e inspiram milhões de outras mulheres a aderir a dietas absurdas, medicações desnecessárias e exercícios que não precisam para tentar se parecer com elas. Cegas pela necessidade de serem consideradas belas, atraentes e magras, não percebem que quanto mais aplaudem, mais em perigo se colocam.

