crônicas

Arrivederci

Um menino se sentiu órfão no dia 19 de maio de 2018. Um menino apaixonado por futebol, em especial pela função de goleiro, viu seu maior ídolo, sua inspiração, com seus 40 anos de idade, 17 deles dedicados ao futebol e à equipe da Juventus, se aposentar da equipe italiana.  Era costume esse menino se vestir todos os dias com a mesma camisa verde – com o número um nas costas e com o nome Buffon – acompanhada por um short e meias pretas, para ir jogar futebol com os amigos. Ao chegar lá, se dedicava ao máximo, tentava fazer o que aprendeu assistindo os jogos da Juve. Às vezes errava, mas sempre buscava ser impecável, para valorizar o nome que levava nas costas. A cada defesa que fazia, gritava o nome Buffon. Alguns de seus colegas de jogo o apelidaram com o nome do goleiro italiano e isso o fazia muito feliz. Ele se sentia um pouco Buffon.

O menino cresceu assistindo aos jogos da equipe da Juventus e da seleção italiana, tudo para aprender com o seu grande ídolo. A cada defesa feita pelo goleiro, o garoto comemorava, a cada gol sofrido, ele se angustiava, a cada título conquistado, ele vibrava. E assim foi por muitos anos. O menino cresceu e o seu ídolo envelheceu, entretanto, sua admiração pelo atleta o acompanhou por toda a vida.

O que parecia que nunca ia acontecer aconteceu. O goleiro anunciou sua despedida da equipe, e a última rodada do campeonato italiano temporada 2017-2018, contra o Hellas Verona, seria o seu último jogo. E que jogo…

Marcado por homenagens, Gianluigi Buffon entrou em campo. Foi pouco acionado nos momentos em que esteve em campo e, quando foi necessário, mostrou o porquê de ser uma referência na posição, fazendo defesas impecáveis. Aos 20 minutos do segundo tempo foi substituído sob aplausos de todo o Juventus Stadium. Entre abraços, lágrimas, homenagens, Buffon saiu de campo e deixou pela última vez, como jogador, o gramado daquele estádio que foi como sua casa por muitos anos.

Na arquibancada, o menino, que agora já não é tão jovem assim, viu o seu ídolo deixar o campo. E ele percebeu que o tempo passa para todos, sejam ricos ou pobres, famosos ou anônimos. Enfim, o tempo passa. O tempo nunca perdoa. E ele é um mau amigo, ele é cruel. O mundo do futebol se despediu de um grande jogador, afinal Gianluigi Buffon não entrará mais em campo como goleiro da Juventus. Entretanto ele deixou um legado único, ele se despediu como um dos maiores goleiros da história. O título de único, dado pelos torcedores da vecchiasignora, termo que se refere aos torcedores da Juventus, nunca foi tão bem empregado como agora. Ele foi único e sempre será. Não existirá outro Buffon.

Indo para casa, olhando para o estádio vazio, com lágrimas nos olhos, o menino se despediu também. Pegou a sua camisa verde, agora um pouco velhinha, cavou um buraco perto do portão principal do estádio e a enterrou. Ele também se despediu do futebol, assim como seu ídolo. Agora ele ficaria apenas assistindo aos jogos, jogar não era mais para ele, tudo o que queria era ver a nova geração de goleiros e ensinar outros meninos a amar essa posição tanto quanto ele amava.

O futebol está muito longe de ser apenas um jogo. O futebol é uma espécie de entidade, de religião que mexe com os sentimentos das pessoas. Quem nunca chorou por seu time perder uma final de Libertadores, ou ser eliminado precocemente de uma competição, ou ser rebaixado para uma série inferior? Quem nunca vibrou quando seu time foi campeão, saiu nas ruas cantando o hino depois que venceu um rival, vestiu a camisa com o maior orgulho? Olha essas pessoas que nunca fizeram ou sentiram vontade de fazer isso não percebem o que é o futebol e como é gostoso adorar este esporte. O futebol mexe com a paixão, cria ídolos e a mais calma das pessoas se torna uma fera para defender sua equipe ou jogador preferido. Nunca será somente um jogo, é muito mais do que isso.

 

Brendon Eduardo
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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