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A persistência do racismo no futebol brasileiro

O futebol é uma das maiores paixões do povo brasileiro, isso é incontestável. Nos estádios, nós celebramos vitórias e sentimos as derrotas, mostramos nossa alegria e emoção e torcemos junto, levantando o time em momentos complicados do jogo, somos verdadeiramente o camisa 12 mesmo fora de campo. Mas existe um lado triste e desprezível que teima em não desaparecer: o racismo. Ainda que vejamos o país como um lugar de mistura e convivência harmoniosa, a realidade nos estádios conta outra história, e que muitas vezes são abafadas pela mídia e pelo próprio público. Longe de ser um problema passado e superado, o racismo infelizmente se mantém vivo, principalmente em um local que deveria ser repleto de bondade e conexão com o próximo, ele se esconde em comentários disfarçados de brincadeira, em xingamentos baixos, imitações de macaco e em ataques diretos contra jogadores e torcedores. Apesar de existirem leis e campanhas contra o racismo, essa prática abominável ainda não foi eliminada, ela se adapta e reaparece mostrando que o preconceito é um problema profundo e que vai muito além do futebol, é algo estrutural e está enraizado na história. Precisamos então olhar para essa situação e entender que o racismo não acabou, e que é uma ferida que permanece aberta, mostrando que nossa sociedade ainda precisa evoluir muito para ser de fato um lugar de respeito. 

A forma como o futebol e as questões raciais se misturam no Brasil é bem complexa, pois embora o esporte tenha sido uma grande chance para muitos jogadores negros melhorarem suas condições de vida, essa integração nunca foi de fato igual para todo mundo. Segundo Carlos Alberto Jr. (2018), pesquisador da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em seus estudos sobre a imprensa e os negros no esporte, a ideia de que o Brasil é uma “democracia racial” (onde as raças convivem sem problemas) sempre serviu para esconder o racismo de verdade que está estruturado na nossa sociedade, e que no mundo do futebol isso fez com que se contasse uma história de que o esporte era um lugar supertranquilo. Criou-se uma ilusão de perfeita harmonia entre as raças que acabou sufocando quem tentava denunciar o racismo. O resultado foi a banalização de preconceitos e de agressões psicológicas/físicas, que passaram a serem vistas como algo “comum”. 

O racismo no futebol mudou de cara com o tempo, mas nunca parou de acontecer de verdade, e ele foi se manifestando tanto de forma explícita, com xingamentos e imitações pejorativas de primatas, quanto de maneira disfarçada. Como o episódio do goleiro Aranha em 2014, que levou o Grêmio a ser excluído da Copa do Brasil daquele mesmo ano, marcando uma das poucas punições esportivas severas, e o caso Edenilson (Internacional) vs Rafael Ramos (Corinthians) em 2022, que evidenciou a dificuldade de provar as ofensas dentro de campo, além de agressões a torcedores nas arquibancadas, o que prova que apesar das denúncias e câmeras, o problema persiste e só tem aumentado nos últimos anos. 

De acordo com o Instituto Claro (2024), que cita análises de especialistas no tema, as ações do Estado e dos clubes de futebol, como a falta de multas financeiras altas, perda de pontos ou banimento do clube e difícil identificação do culpado, ainda não são suficientes para resolver o problema por completo, uma vez que as sanções brandas reforçam a sensação de impunidade. A Lei nº 14.559 de 2023 foi um grande avanço porque tornou o racismo um crime inafiançável e imprescritível. Mas colocar essa lei em prática nos estádios é difícil pois os agressores na multidão são difíceis de serem identificados, além dos processos na justiça que são lentos e ainda há uma cultura de impunidade. Nessa situação as organizações da sociedade civil são muito importantes e o Observatório da Discriminação Racial no Futebol faz um trabalho essencial nessa luta, seus relatórios anuais detalhados não só mostram o número de casos de racismo, mas também explicam como esses ataques acontecem e quais são seus impactos. Esse trabalho é uma fonte de informação vital para pesquisadores e para a criação de novas políticas públicas. 

O racismo resistir nas arquibancadas e no campo só mostra que o Brasil ainda carrega um passado de exclusão e que não superou por completo sua história escravista. Os estádios, onde todos os fãs de esporte se reúnem, funcionam como um espelho da sociedade e mostram claramente as tensões raciais que vemos no nosso dia a dia. A verdade é que não adianta só ficar apagando incêndio e punindo caso a caso, é preciso ter um plano sério que una os clubes, o governo, a justiça e a sociedade. Para isso, são necessárias educação de qualidade que aborde esse tema de forma branda, tecnologia para identificar os agressores em meio à multidão e justiça rápida, são medidas essenciais e que não podem mais esperar. Enquanto atletas e torcedores forem humilhados pela cor da pele, o jogo mais importante que é o de construir um país verdadeiramente justo e igualitário vai continuar empatado. Como disse o brasileiro Vinícius Júnior, jogador do Real Madrid, em um vídeo publicado em suas redes sociais após um episódio de racismo sofrido pelo mesmo: “enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho nos olhos, haverá guerra.” 

Ludmila Santana
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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