Há um conto em cada ponto
Sempre ouvi que a vida é uma grande escola, então, presumo que estaremos sempre aprendendo em qualquer lugar que formos. Às vezes, como em uma aula, algo nos passa despercebido e, assim, seguimos com alguns hábitos que se transformam em atos socialmente construídos. Quer um exemplo desse “algo”? Ônibus.
É engraçado – porém triste – o fato de o ser humano ser viciado em comunicação e, ao adentrar em um transporte público, agir como se houvesse apenas ele ali. Mesmo com o ônibus lotado, agimos como se as pessoas sentadas naqueles bancos fossem apenas robôs que te obrigam a ficar em pé e fazer algum exercício físico. Penso que é por isso que usamos fones de ouvido na maioria das viagens.
Outro dia, ao sair do dentista, entrei em um ônibus no terminal e decidi usar o pouco tempo do trajeto para ler o livro que o professor havia solicitado. Quando o abri, a senhora ao meu lado disparou:
– Esse livro parece ser chato, não é?
Eu fiquei surpreso e achei muita audácia uma desconhecida julgar o meu livro pela capa, porém, fui obrigado a concordar. O livro realmente era chato, mas lhe disse que era necessário. Depois da minha resposta, ela iniciou uma conversa comigo como se me conhecesse há tempos. Ela me perguntou em qual faculdade eu estava matriculado, o curso, perguntou sobre o livro e aprofundou suas dúvidas, ao mesmo tempo em que rompia as minhas barreiras, até que uma hora perguntou:
– Você tem um amor?
– Não, não tenho. Já amei alguém, mas não fui correspondido.
– Ah, eu já tive um amor, sabia? Ele era tão lindo, mas o tempo passou e a gente foi esfriando. Aí a gente brigou e separou. (sic)
Depois de contar sua história romântica, ela entrou em outra esfera da vida e me perguntou:
– Você tem sonhos?
– Sim, tenho. Tenho muitos. Sonhos em relação ao amor, à profissão, às amizades e tal, e a senhora?
– Ah, meu filho, eu tinha muitos, sabe? Mas eu larguei de mão depois que conheci o meu marido. Comecei a viver pro meu casamento e deixei eles de lado. Eu falo todo dia pros meus filhos que eles têm que correr atrás dos sonhos deles. Um quer ser médico e a outra advogada, sabe? Eu peço a Deus pra eles não cometerem o mesmo erro que eu. (sic)
No meio de toda essa conversa, estávamos chegando ao ponto em que ela iria descer e ela já começou a se despedir levantando do banco:
– Olha, você vai encontrar um amor porque você vale a pena. Tchau, viu? Até qualquer dia quando eu te ver apresentando o BATV. (sic)
Eu comecei a rir e a dar tchau para ela, e quando ela desceu do ônibus, eu me dei conta de uma coisa: eu não tinha perguntado o nome daquela senhora e nem ela o meu. E foi simplesmente uma pessoa desconhecida, que em um dia que estava sendo ruim pra mim, iniciou um diálogo comigo em um ônibus e me mostrou o quanto estamos separados uns dos outros enquanto seres humanos. Quantas histórias incríveis já não se sentaram ao nosso lado, permaneceram naquele banco e foram embora sem ao menos olhar para nós e nós para elas? Quem sabe já não se sentou ao seu lado uma pessoa que gosta do mesmo estilo musical que você e vocês teriam muito assunto em comum, ou alguém que era muito amigo do seu crush? Seria bom viver em um mundo onde o contato respeitoso fosse sempre incentivado e, quem sabe assim, algum dia não faríamos jus àquela música do Roberto Carlos que diz: “Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar”?

