A última carta
Querido diário,
É mais um sábado frio de outubro. Levantei meio sonolenta, chequei os e-mails como de costume, sentei na cama e peguei um livro meio surrado. Na sua contracapa, eu anotava há quantos dias eu estava sobrevivendo.
247 dias em que estou perdida, sozinha e sentindo falta dele. Espero que ele esteja bem, mas não serei hipócrita, rezo para não estar tão bem quanto estaria se estivesse comigo. Parece egoísmo de minha parte, eu sei, mas acredite, não é.
Tomei o chá que ele sempre fazia para mim: camomila e erva doce. Lembro que ele dizia que eu deveria tomar pelo menos um litro por dia, para que o chá acalmasse meu jeito rude de ser. É, onde estiver, eu sei que ele está feliz, pois conseguiu concluir a sua meta de me acalmar. Na verdade, tudo está mais calmo: a minha vida, o meu jeito e, principalmente, o meu amor.
Mês passado, exatamente no dia onze de julho, eu voltei a procurar o perfil dele na internet. Voltei a olhar as fotos, voltei a ver o que ele tinha publicado. Às vezes eu faço isso, sinto uma enorme dor corroer meu coração, como se uma lâmina estivesse fatiando-o lentamente, dizem que essa dor se chama saudade. Talvez seja isso mesmo: saudade de um tempo que nunca mais vai voltar.
Quando tudo aconteceu, eu quis poder ter uma conversa séria com Deus e perguntar: Por que comigo? Será que eu merecia tanta dor? Queria perguntar por que ele e não a mim. Era para ser eu ali no chão, baleada, sangrando e implorando por socorro. Ele deu a vida por mim e agora estou prestes a devolver o presente.
Escrevo este último texto no meu diário para que todos saibam que eu tentei, mas a dor da solidão me devastou um pouquinho a mais todo dia. Foi me corroendo e agora já não dá mais. Não fiquem tristes por mim, essa morte de agora só foi a consumação do que aconteceu há oito meses. Um anjo deu a vida por mim. Na saída de um cinema, fomos abordados por um assaltante. Ele se atirou na frente de uma bala destinada a me matar. Ele me salvou.
Diário, escrevo isso como relato: hoje o meu amor transcendeu, e com essa lâmina, eu corto o laço que ainda me mantinha aqui. Porque agora eu não sobrevivo mais. Agora eu vivo. Não em carne, reconheço, mas em alma e com amor, com o meu amor. Acho que agora não preciso mais de chá para me acalmar. Acho que meu coração encontrou a paz que tanto procurava: você.

