O relógio
Enquanto olhava a janela suja do trem, sua mente voltava aos anos da infância e da miséria. Sua mãe não mandara notícias desde que se mudara para São Paulo. Já fazia dois anos, mas pareciam dois séculos. Depois que atingiu a maioridade, seu destino deu uma reviravolta e ele viu-se trocando a enxada e o rastelo por outro trabalho que não era moleza. Veio para a “cidade da garoa” tentar ajudar a família, que morava no interior da Bahia, naquele povoado esquecido pelo tempo, mas que era diariamente lembrado por ele.
Todos os dias acordava às 3h30, preparava um cafezinho costumeiro na cozinha – que também servia de quarto e sala –, escovava os dentes e corria para cobrir a pele com várias camadas de roupa para não sentir o frio atingir seus ossos. O clima era estranho naquela cidade em que nem as pessoas transmitiam calor.
Trabalhava descarregando caminhões de frutas e verduras todas as madrugadas. As luvas saíam encharcadas do sereno que se criava em cima da mercadoria. Suas costas já estavam acostumadas à dor incômoda advinda daquele movimento diário de vem e vai. Se tivesse assistido a Chaplin, talvez teria se identificado com algo, mas em seus momentos de descanso nunca fora ao cinema, então, não teria como entender tal referência.
Seu lazer era outro. Nos fins de semana gostava de ir visitar aquela mesma praça perto da Estação da Luz onde a cerveja era mais barata e onde também serviam uma rabada que lembrava um pouco o tempero da sua mãe, embora não chegasse nem aos pés da receita original. Parava no parquinho para fumar um ou dois cigarros e observava as famílias que se reuniam ali. Às vezes, a cabeça doía por conseguir ouvir os rangidos do peso de todas as vidas que ele poderia estar vivendo.
Voltou a atenção para a paisagem do outro lado da janela suja do trem e viu um sujeito mal-encarado que não tirava os olhos de sua direção. A estranheza fez com que ele franzisse a testa e olhasse feio para aquele estranho que o vigiava parado na estação. Não deu mais importância e foi conferir o horário no seu relógio novo e entender o porquê da demora da partida. Os ponteiros marcavam 11h28. Mais dois minutos e partiria rumo à São Bernardo do Campo para rever seu irmão.
Olhou novamente para o relógio, mas dessa vez, não foi para conferir a hora e sim para admirar um pedacinho de vaidade que se deu ao luxo de comprar. Todo o dinheiro que ganhava era destinado à família, porém, naquele mês, guardou uns cruzeiros e comprou aquela bela peça prateada que se destacava de longe por seu brilho e tamanho.
Ouviu o apito e despertou de seus pensamentos. Ergueu o braço e, como estava no canto do banco que lhe permitia acesso à janela, colocou o cotovelo no parapeito e a mão encostada no puxador. Estava distraído demais para perceber o mesmo sujeito que estava há dois minutos parado na estação correr ao lado do trem e puxar seu relógio novo com uma agilidade sobrenatural. O malandro enfiou o dedo no espaço que sobrava entre seu punho magro e o relógio, arrancando-o logo em seguida. O susto foi grande, mas a decepção foi maior por não poder fazer nada, já que o trem já se movia. Aquele miserável ainda acompanhou o trem um pouco mais. Enquanto acenava em despedida com uma mão, balançava o seu relógio na outra. O sorriso zombeteiro daquele homem ficou rodando sua cabeça durante muito tempo e, enquanto olhava a paisagem, ainda perplexo, conseguia ver espectros do mesmo indivíduo.
Chegou a São Bernardo triste e sem graça. Não quis dizer nada a seu irmão com medo dele lhe reprimir dizendo algo como “gastar dinheiro com besteira”. Preferiu lamentar sozinho. A tristeza se transformou em vergonha, que se transformou em fúria, que se transformou em aceitação e que logo se transformou em piada. Com o passar dos dias, a história foi se desvanecendo e ele já não ligava mais para aquele maldito relógio ou para o homem que lhe roubara o pequeno tesouro. Afinal, só precisava do despertador, já que lhe era permitido pensar apenas no trabalho e nada mais.

