crônicas

As várias Marias

Maria foi brutalmente violentada ao voltar da universidade. O caso repercutiu no noticiário e tudo mais. No dia seguinte, antes de qualquer coisa, a vizinha me questionava: “que roupa ela vestia?”. Como se a crueldade do ato e todo o resto não importasse, porque, se ela estivesse com uma roupa muito curta, talvez estivesse pedindo e tenha merecido o que quer que tenha lhe acontecido.

Chamei a vizinha para tomar uma xícara de café e conversa vai, conversa vem, questionei-a se ela podia compreender a sensação de alívio ao olhar para trás, tarde da noite, numa rua deserta, e ver outra mulher. Para o meu espanto, ela disse que não; que mulher nenhuma devia sair sozinha à noite. Eu me lembro de ter me sentido triste, pois ao contrário dela, eu podia compreender o sentimento de medo ao ver um homem vindo atrás de mim tarde da noite, e não somente em um lugar ou apenas uma vez. Voltando da universidade, mas também do supermercado.

Ela me disse que embora soubesse que mulheres também podiam ser potencialmente perigosas, desde cedo haviam lhe ensinado a temer os homens. Sua mãe sempre lhe disse para não ficar sozinha com eles, a menos que fosse o seu marido; na igreja, não podia nem se pensar em usar um vestido acima do joelho e se pensasse, o pai também não aceitaria de forma alguma. Além disso, ao contrário de mim, nem pôde entrar na universidade, pois fora criada para ser do lar e aprendeu que lugar de mulher era mesmo em casa.

Ao ir embora, toda a conversa não havia saído da minha cabeça e fiquei ainda mais triste. Comecei a pensar sobre a necessidade de mudar e sobre o quanto, mesmo muitos anos depois do nascimento da vizinha, a sociedade ainda age exatamente igual. Digo, eu ainda escuto sobre que roupa a vítima usava quando foi estuprada; sobre onde estava ou como a mídia continua a sexualizar as mulheres. Exatamente com a mesma culpa que atribuíam às mulheres em sua época, como ela havia me contado.

No dia seguinte, cartazes estavam espalhados por todo o campus e Maria havia se tornado símbolo de resistência. A campanha, que fora engajada por colegas dela, estampava as várias faces de mulheres e Marias espalhadas pelo mundo: A Maria, que mesmo com o corpo coberto da cabeça aos pés, foi estuprada por vários homens dentro de um ônibus; a Maria que recebeu cantadas e assobios de um professor nos corredores; a Maria que foi demitida porque se recusou a dormir com o chefe. Sem nos esquecermos da Maria que foi morta pelo namorado ciumento após postar uma foto de biquíni no Instagram.  São várias as Marias. Inclusive eu, e a vizinha.

Lívia Medeiros
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


Acesse o site anterior.
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia