crônicas

Não finja estar preocupado

Há quatro anos, ele decidiu ir embora. E ao ir embora, abandonou um posto que jamais deveria ser deixado. Não contente com todas as merdas que fez, ainda se sentiu no direito de fazer mais. De se fazer de vítima numa história em que era, majoritariamente, algoz. Mas vocês sabem que o mundo não é maniqueísta, e como tal, muitos lados existem. Me permitirei falar do meu.

Gostaria que essa história fosse sobre um homem que amei como um parceiro, mas, infelizmente, não é. Ele era meu pai. E veja bem, eu digo “era” porque parei de contá-lo como um pai… Me refiro àquele homem com essa palavra apenas para fins de esclarecimento. Esclarecimento para os que não conhecem a história por dentro, que não viveram, viram e ouviram os absurdos que eu vivi. Àqueles que, felizmente, não sabem como é conhecer um “ex-pai”, porque têm no pai uma figura que confiam e que podem recorrer quando o cinto apertar, quando a saudade vier e quando o mundo os maltratar. Eu só poderia dizer que não o perdi se, apesar de tudo, eu pudesse contar com ele. E eu não posso.

Então, nos últimos anos, eu mergulhei em diversas camadas internas que, aparentemente, não acabam. Acredito, inclusive, que parte desse processo é semelhante às cinco fases do luto. Sim. Aceitar isso tudo é aceitar que ele morreu. De alguma forma, em algum grau, ele morreu pra mim. Porque o homem que eu conheci não está mais presente nessa realidade.

Para você que talvez não saiba, segundo uma série de estudiosos da psicologia, o luto tem cinco fases: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação. A primeira, Negação, é a fase em que não conseguimos aceitar que a pessoa que amávamos morreu e que não vai voltar. A nossa mente é tão profundamente complexa que cria desculpas, acredita que é tudo um sonho, espera o momento em que aquele aparente circo vai desabar e descobriremos que foi uma grande brincadeira de mau gosto. Obviamente, isso não acontece e, por esse motivo, mais dia menos dia, nós desembocamos na segunda fase: a Raiva. Nos inflamos, nos rebelamos, atacamos qualquer um porque estamos feridos e, como animais que somos, nosso instinto grita para que possamos nos defender. É como dizem por aí: “a melhor defesa é o ataque”.

Questionamos ao Universo o porquê de nós, que sempre fomos bons meninos e meninas, perdemos alguém amado. Inutilmente nos debatemos de ira e dor… E cansados de estar assim, passamos ao terceiro estágio, também conhecido como Barganha. É nessa fase que a gente percebe que não adianta tentar no grito. Se existe um ser divino que guia nossos caminhos, este ser quer que sejamos melhores e por isso é que passamos a negociar.

Promessas de melhoramento interno ou externo, mudança de hábitos, o encontro de novos rumos, novos sonhos, tudo isso passa a ser moeda de troca pra que de alguma forma a situação volte ao “normal” (como se a morte não o fosse). Como já é de se imaginar, a Barganha não funciona e é por isso que damos de cara com a quarta e mais intensa fase: Depressão. A consciência da perda nos alcança e tudo o que resta é um sofrimento latente e duradouro, ao passo que o ânimo para avançar vai morrendo. A dor e a apatia se tornam profundas. “Como eu vou conseguir viver depois disso?”. Mas é necessário viver, não é? Por isso chegamos à última parte, a Aceitação. A chuva de sentimentos serena e o vazio se torna solo fértil para o surgimento do novo. Não dá pra ficar aqui se debatendo e sofrendo durante toda a vida, então decidimos apenas seguir…

Gostaria de dizer para todo mundo que, após quatro anos, eu passei pelas cinco fases e as superei. Não, infelizmente não. As constantes atitudes de ofensa e desvalorização a mim e aos meus, bem como a agressão física a uma mulher (ou o assédio sexual a outra) foram os combustíveis que me trouxeram a uma perpetuação doentia da Raiva, Barganha e Depressão. Quero deixar claro que não barganho mais em nome do meu “pai”, mas em nome da minha melhoria interna. Seguir o processo cristão de perdão. Infelizmente, todo esse processo remonta a questões profundas demais, extensas demais.

Enfim, eu precisei mergulhar para que o tsunami que veio de todos os lados não me carregasse para longe daqueles que eu amo (e que sei que me amam). Lutei em meu nome e no de todos os que ele machucou. Não sou santo, disso vocês podem ter certeza. Me inflamei, gritei e ofendi aquele que me criou. Repetindo, “a melhor defesa é o ataque”. Ataquei demais, reagi demais. Cansei. Meu foco agora é algum tipo de busca pessoal. Barganha? Não sei. A realidade é que hoje eu decidi lutar em nome da minha paz de espírito. Mergulhei no mar profundo de emoções que vivem em minha mente.

Ainda não encontrei o que eu decidi buscar dentro de mim. Na verdade, ainda não sei qual a forma do que estou procurando. Eu apenas decidi que a solução está no meu interior. Me recuso a esperar mais um instante pela mudança dele… Aliás, por que eu ainda espero? Sabe por que tememos a morte? Porque ela é o sinal claro de que nossas chances acabaram. Se o homem que eu chamava de “pai” morreu para mim, suas chances também acabaram.

Rafael Urpia
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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