Os heróis vestem a 10
Certo dia fui ao Estádio do Avoador, em Canhetim, no Piauí, onde aconteceria o jogo de futebol entre Santa Canheta e Algaz, pela Série D do Campeonato Brasileiro. Porém, não era uma partida comum. O jogo valia uma classificação para a Série C, e também marcaria a volta do meio-campo Luizinho para o Santinha. Luizinho é aquele típico camisa 10: joga como meio-campo, é canhoto, tem uma habilidade impressionante de armar o jogo e também faz gols.
Ele pode ser considerado o jogador mais importante da história do clube piauiense, já que conseguiu importantes títulos das Séries A, B e C com a equipe em anos anteriores. Contudo, boa parte da torcida está desconfiada com a sua volta.
O jogador já está com 35 anos, uma idade considerada avançada para o futebol. Mas, na verdade, o Brasil e talvez o mundo sofre com a falta de jogadores jovens que fazem o papel do 10.
Hoje, os meninos querem ser jogadores que atuam pelas pontas de ataque. Não se vê mais a vontade em ser o cérebro da equipe, aquele cara que pega a bola, olha o jogo, que acalma os companheiros quando é necessário e também é o herói!
Antes do jogo, Luizinho postou um vídeo em suas redes sociais dizendo: “Agora eu estou de volta, precisamos da classificação, agora é guerra!”. Isso inflamou a torcida do Santinha, pelo menos o jogador demonstrou vontade para jogar, parecia que queria matar um leão.
Quando cheguei ao Estádio do Avoador, a atmosfera estava de arrepiar. Há tempos não via o lugar daquele jeito. Várias pessoas estavam com cartazes de apoio ao General, que é o apelido de Luizinho no Piauí. O público girava em torno dos 4 mil pagantes, ou seja, o estádio virou um verdadeiro caldeirão, já que sobraram somente 200 lugares, os quais ficaram reservados para os visitantes.
Sentei na arquibancada e comecei a cantar para incentivar a equipe antes do jogo começar. Os dois times entraram em campo, e junto com eles veio o Tucano ”Pistola”, que é o mascote do Santa Canheta. Engraçado que ele entrou com uma faixa que tinha a seguinte frase: “Respeita o General, hoje tem guerra”.
Rola a bola, um jogo muito difícil no primeiro tempo. Luizinho criava poucas chances e aquela desconfiança do torcedor só crescia, mas a esperança ainda era mais forte, e a torcida não parou de incentivar. As duas equipes foram para o intervalo com o placar em 0x0.
O Santinha voltou para o segundo tempo com uma proposta mais ofensiva. O centroavante do time sofreu uma falta na entrada da área adversária. Luizinho era um bom cobrador de bolas paradas e ali estava a chance de escrever mais um capítulo da sua história pelo Canheta. Ele acerta uma cobrança magistral no canto do goleiro, sai para a torcida e grita bem alto: “minha vida são vocês, aqui é raça”.
Não satisfeito ainda com a sua atuação, o General marcou mais duas vezes. Driblou e bateu cruzado em um lance e em outro dividiu uma bola e marcou de carrinho. O jogo acabou e ali estava sacramentado o acesso do time para a Série C. O Estádio estava uma loucura, há tempos que eu não me sentia assim. Todas essas emoções vêm de um nome, Luizinho!
São atuações como a de Luizinho que me fazem refletir como faltam caras iguais a ele no futebol. O General não é apenas um jogador, é muito mais que isso! Até por vestir a camisa 10, o olhar direcionado para ele é diferente. Tem um papel muito importante tanto dentro de campo quanto fora. Ele é o ídolo de todos que vão ao estádio, também pode ser considerado a identidade do Santa Canheta. Luizinho é mais que um herói, um camisa dez.

