Última vez
Eu comia os cantos dos dedos, porque unhas já não mais me restavam. Decidi tocar meu violão para ter um momento de calma, mas me frustrei. As cordas de aço do meu velho amigo, ao invés de consolo, me fizeram doer as pontas dos dedos carcomidos. Bem provável que eu não conseguiria cantar nem uma nota sequer para acompanhar, pois as lágrimas já estavam engatilhadas em meus olhos e o peso na garganta se moveria por um triz para fora ao som dos acordes. A verdade é que eu choraria de um jeito ou de outro. E o fiz.
Fui ao banheiro lavar meu rosto. As manchas de ferrugem da película de prata do espelho se misturaram com minha imagem. Meus olhos umedecidos deixaram ainda mais turvo o meu reflexo. No espelho manchado, o peso dramático de um olhar vazio. De luz, só a da lâmpada incandescente, que dava um tom amarelado à minha dor. Eram as últimas lágrimas dedicadas para isso que eu sentia. Choraria por outras dores depois, mas jamais novamente por esta. Estava decidido a mudar de vida.
Tempos atrás, como quem quisesse experimentar um novo gosto, abri o peito para a paixão. Acreditava muito no que os olhares das pessoas me diziam e, se conversasse com você, te olharia nos olhos e alimentaria minha crença. Se você mentisse, sairia da conversa depois com as duas versões criadas em minha paranoica cabeça só pela observação, a verdadeira e a falsa, mesmo isto não sendo exato.
Isso até chegar o dia em que um olhar feminino me disse uma mentira. Boca e olhos mentindo sobre uma promessa de amor. Ou, quiçá, eu não tenha sabido ouvir direito o que aqueles malditos olhos me disseram.
Criou-se uma sintonia. Criada por mim, porque não existia. Inventada pela minha cegueira. A mulher do olhar traidor ouvia as mesmas músicas que eu, de Caetano Veloso à Cícero Rosa Lins. Falava das flores que, por coincidência, eram também as minhas favoritas. Das margaridas e das orquídeas. Me ligava no exato momento em que eu estava pensando nela, mas eu nem tinha me dado conta que pensar nela o dia todo não era incomum. Qualquer ligação seria uma surpresa. Enfim, para mim existia uma conexão, uma ligação, o universo a favor do amor de dois. Merda nenhuma.
Um dia, me chamou para sair. Olhou em meus olhos (ela sabia que assim atingiria seu objetivo com maior facilidade) e disse que não dava mais para continuar. Que não estava pronta. Que o problema estava nela, não em mim. Me desejou sorte, e disse para eu ficar bem. Na hora, me estatelei. Somente fiquei a observá-la, sem reação, levantando-se da cadeira amarela do bar enquanto minha garganta já preparava o nó. E se foi. Nem do perfume sei mais.
Duas coisas que odeio: despedidas e términos. Palavras que parecem sinônimas se desconsiderarmos as coisas que vão embora, mas que insistem em não findar. Desse dia para cá, eu não fiquei bem. Nada bem. A ansiedade, patológica, tinha já feito casa em meu espaço. Eu não era mais só meu, era também das minhas dores. A mente trabalhava em sofrimentos que sofri, que sofria no momento e nos que iria sofrer. Tinha dias que eu era fervura, o suor descia por cada pedaço de corpo. Eu tremia. As mãos, as pernas, as pálpebras, os lábios. Tudo tremia. No peito, o coração pesado. E tudo ao redor parecia virar meu inimigo: os gestos, os olhares, as falas, qualquer movimento, inclusive os meus.
Três longos meses assim, até hoje, o último dia. Última vez que meu espelho terá a imagem turva dessa dor. Seguirei acreditando em olhares, mas ciente que nem todos os olhos são janelas para a alma. Aquilo que insistia em não ter fim, hoje morre. Eu vivo. Pretendo resgatar o brilho em meu olhar, hoje ainda pesado e vazio.

