crônicas

A vida e seus lances

Nós éramos como brinquedos. A vida era a criança. Mas o problema é que é essa criança adorava fazer traquinagens. Numa dessas andanças, a vida escolheu brincar com a gente. Era final de 2000, início de 2001, quando Mãe começou a sentir que algo não estava bem. Iniciava ali uma luta contra o maligno, miserável, destrutível câncer. Eu e meus 7 irmãos, dois mais novos que eu e outros cinco mais velhos, não entendíamos muito bem o que se passava naquele momento. Pra ser bem sincero, eu, pelo menos, não entendia. Tinha apenas 13 anos e pouco conhecimento a respeito daquela doença, ou de qualquer outra. Não tínhamos muitos meios de comunicação para nos informar. A minha irmã mais velha foi a grande guerreira da história, travou uma grande batalha para cuidar de minha mãe, não a abandonou em nenhum momento, desde as consultas ali mesmo na nossa cidadezinha, até as dolorosas sessões de quimioterapia.

Essa luta durou mais ou menos dois anos, de muito sofrimento. Quando tudo parecia estar bem, ela piorou de vez e foi tudo muito rápido. Vinha eu e meu pai chegando da pedreira onde trabalhávamos, e no caminho comentei com ele que visitaria minha mãe, mesmo não gostando de vê-la naquela situação. Para minha tristeza, ao chegar em casa, uma criança ainda inocente filho de um vizinho gritou: “Dona Zefa morreu”. E eu retruquei: “Você está maluco menino, não fale besteira”. Não precisei chegar em casa para perceber que, infelizmente, aquele menino falava a verdade. O choro ecoou na casa, as lágrimas desceram nos meus olhos. Ali não entendia muito sobre a vida, mas sabia que um grande pedaço da minha família se acabara. A minha mãe era tudo para nós, mas o pior é que isso só se tornou mais explícito quando ela não mais existia.

A vida era simples, não tínhamos luxo, mas tínhamos felicidade acima de qualquer dificuldade. Queria tanto ter amado mais, abraçado, ter dito “eu te amo” naqueles momentos em que eu deitava em seu colo e ela fazia cafuné no meu cabelo. Hoje fico pensando por que a vida é injusta com a gente, arranca de nós as pessoas que mais amamos. Prefiro pensar que a vida não é má, mas nos torna fortes com esses golpes. Foi por isso que me tornei um homem forte e meus irmãos também. Quinze anos depois, e em tudo que faço, ela está presente. Ela me inspira, me dá forças, pois penso que tenho que fazer a diferença por ela. Tenho certeza que nesse momento, em forma de anjo ou de estrela, ela deve estar sorrindo e feliz por tudo que aqui relatei. Saudades, Mãe.

 

Sebastian Nascimento
Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


Acesse o site anterior.
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia