Conte até dez
João Lopes, 19 anos, sempre reagiu de forma intensa às situações que aconteciam em sua vida, seja na espera de uma simples consulta médica, seja em uma reunião de trabalho. Em um belo dia, ou não tão belo assim para ele, prestes a apresentação da sua monografia do curso de Biologia, algo em seu corpo começou a mudar e a mente parecia estar em outro espaço que ele não controlava muito bem. Ele andava para lá e para cá, se alimentava e parecia que nunca ficaria satisfeito. Fazia tudo de forma ligeira, seja falar ou até andar. Essa sensação pairou durante todo o dia.
Já era noite. Enquanto se preparava para descansar para o outro dia e finalmente apresentar seu trabalho de conclusão de curso, ele sentiu como se estivesse caindo de um prédio de duzentos andares, em câmera lenta. Logo a respiração tornou-se difícil para ele, profunda, como se alguém apertasse seu pescoço. Seu corpo inteiro estava tremendo e inquieto. Sua mente repetia que sua apresentação não iria ser um sucesso, apesar de estar tudo pronto. A cabeça doía. Um peso nas costas. Seu estômago parecia revirar, queria vomitar. E aí veio o choro que ele não conseguiu conter. Chorava e chorava, até soluçar. Não conseguia desligar sua mente. Foi difícil dormir aquela noite, se ele fechou os olhos por uma hora foi muito, sua mente não parava. Contar carneirinhos não adiantava, assistir um filme chato que com certeza faria qualquer um dormir também não surtiu efeito, nada… Só restava ele e sua inquietação no quarto escuro. Suplicava aos deuses para que fizessem tudo aquilo parar, mas, infelizmente, não obteve respostas, como nas outras vezes.
A ansiedade deixava João pensando que não era capaz de fazer nada certo. Sim, ele era ansioso e isso que aconteceu foi apenas uma de tantas outras crises que ele já havia tido durante sua vida, algumas mais fortes do que essa. A ansiedade sugava a alma de João lentamente. Quando estava em crise João não dormia, revirava-se na cama até o dia amanhecer, as horas simplesmente não passavam.
Ele nunca buscou tratamento pois sempre achou as consultas caras. Até que em uma terça-feira a tarde, em meados de março, ele recebeu um panfleto no centro da cidade em que morava, no interior da Bahia. No corpo do panfleto havia um texto breve falando sobre uma instituição pública que oferecia serviços psicológicos gratuitos, bastava apresentar a documentação e marcar a consulta. Já vai fazer um mês em que ele tomou coragem e marcou uma consulta com a psicóloga Carol, e até hoje, todas as terças e quintas-feiras João vai para o consultório tirar todo o peso do corpo, mente e alma. De forma bem calma e gentil, durantes todos esses encontros, Carol o fez entender que não temos o controle das coisas que acontecem durante nossa existência, e tudo que passamos é essencial para o crescimento individual de qualquer ser humano. Hoje as crises vêm de vez em quando, como quem quer alguma coisa, então ele conta até dez enquanto respira lentamente para se acalmar, tenta desviar os pensamentos, conta mais uma vez… Outra… E outra… Até sentir-se mais calmo.

