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Registrando afetos: a vida sob o olhar de um fotógrafo de rua

por: Aline Ribeiro e Lucas Oliveira

Absolon durante a entrevista. Foto: EXTRA!Ordinário.

 

A fotografia é um dos principais meios de comunicação na sociedade atual. É quase impossível imaginar alguma família que não possua um registro fotográfico. Desde selfies a fotos com um viés mais artístico a fotografia é sempre cercada de afeto e sentimento. Uma lembrança, uma forma de registrar o tempo. Ela vem se tornando um meio de expressão cada vez mais cotidiano. É muito comum pensá-la a partir do ponto de vista de quem é fotografado e, muitas vezes, a pessoa que está por trás das lentes passa despercebida.

Pensando assim, a equipe do Extra!ordinário entrevistou o fotógrafo e estudante de psicologia José Absolon. Aos 25 anos, ele publica suas fotos no Instagram (@j.abisolon). Em entrevista, ele fala um pouco da sua relação com a fotografia, qual a importância que ela ocupa na sociedade atual e a responsabilidade de se registrar os afetos alheios.

 

EXTRA!Ordinário: Absolon, para você, o que é fotografia?

Absolon: Fotografia, para mim, foi a maneira que eu encontrei para me expressar.  Eu sempre fui uma pessoa muito introvertida, observadora e eu queria muito mostrar por aí como eu enxergo a vida. Primeiro comecei escrevendo algumas histórias e eu acho que, de certa maneira, elas tinham um aspecto visual. Pelo menos quem lia dizia pra mim que conseguia enxergar muito bem os detalhes, conseguia imaginar toda cena que estava descrita ali. Mas ainda assim não estava me dando o suficiente. Como eu sempre gostei muito de assistir filmes, sempre admirei a fotografia, fui lá e comecei a pegar o celular e tirar algumas fotos na rua, mas não tinha coragem de fotografar as pessoas, e eu ficava em casa vendo essas questões de luz, de sombra, como eram no final da tarde, preto e branco, contraste e aí, depois, em 2016, eu fui lá e comprei a máquina. Então, a fotografia é um meio de expressão que eu achei sensacional.

 

EXTRA!Ordinário: Você aprendeu as técnicas sozinho ou buscou alguma fonte de informação?

Absolon: Dizer que eu aprendi sozinho seria muito injusto, porque eu tenho muitos amigos fotógrafos e logo depois que comprei a máquina eu falei para eles: “comprei a máquina, vamos nos reunir e eu quero aprender as coisas”. E aí eu fui pegando algumas coisas com eles e de resto fui enfiando a cara mesmo, fotografando, e acho que essa é a melhor forma. Não fiz um curso oficial, não tenho certificado de fotógrafo pendurado na parede que alguma instituição tenha me dado, mas é isso. Não aprendi sozinho, tive uns amigos e eles foram incríveis no começo da jornada e até hoje me dão algumas dicas e, claro, o Youtube.

 

EXTRA!Ordinário: Você faz mais alguma coisa além da fotografia?

Absolon: Sim, eu sou estudante de Psicologia, nono semestre.

 

EXTRA!Ordinário: Você vê relação entre a fotografia e a psicologia?

Absolon: Olha, no meu trabalho sim, porque o que tenho feito é registrar a vida não só das outras pessoas, mas a minha também. Então, é importante ressaltar que toda fotografia que eu coloco eu estava olhando para aquilo, eu estava vivendo aquele momento. Então, existem ali vários afetos registrados – o meu, que estava percebendo aquilo, seja alguém que passou na rua, algum amigo que olhou pra mim e eu decidi registrar; e tem a outra pessoa também que estava sendo afetada. É aquele o momento dela, então é um pouco autobiográfico. E como a psicologia, para mim, é justamente essa questão de se debruçar sobre a vida, sobre os afetos, sobre as pessoas, eu acho que a relação é bem íntima.

 

EXTRA!Ordinário: O que você acha que faz uma boa foto, além de técnica?

Absolon: Então, é bacana você ter usado a palavra técnica, porque muita gente usa o nome regra. Regras estão aí para serem quebradas e técnicas estão aí para serem utilizadas. Eu acho que o que faz uma boa foto seria a união de técnica e o momento que foi registrado o afeto. Se causou alguma impressão, se causou algum afeto ao ver a foto, essa foi uma boa foto. Algumas passam o sentimento de solidão, tristeza, paz, alegria, então, foi uma boa foto que causou isso em alguém.

 

EXTRA!Ordinário: Quase todas as suas fotos são em preto e branco. Você possui referência de algum artista como Sebastião Salgado? E por que o preto e branco?

Absolon: Eu adoro as fotos do Sebastião Salgado. Já assisti documentários sobre ele que mexeram bastante comigo, mas não sei dizer se na hora que decidi fotografar preto e branco estava pensando nele. Embora ele seja uma grande inspiração, existem outros fotógrafos que usam o preto e branco, como Vivian Maier, uma fotografa norte americana que usa preto e branco para fotografar a rua, e ela tem um trabalho extraordinário. Mas assim, a escolha na verdade veio porque as cores passam informações, o amarelo quer dizer uma coisa, o vermelho quer dizer outra e acho que a ausência de cores permite que a gente enxergue verdadeiramente. Uma questão de olhar, de pele, de sorriso. Acho que passa mais verdade, é mais charmoso, é clássico, é atemporal. Então, acho que o preto e branco dá muito mais do que as cores possam dar.

 

EXTRA!Ordinário: Você disse que a fotografia é a forma de mostrar como você enxerga o mundo. Você acha que ela mudou a sua forma de enxergá-lo?

Absolon: Mudou demais. Como falei, eu sempre fui muito observador, só que agora eu observo ainda mais, sabe? Eu não me vejo tão distraído, eu reparo mais nos mínimos detalhes. Como as pessoas estão sentadas, o sorriso, a forma de olhar, as reações. E em relação a psicologia, como futuramente eu pretendo ter uma clínica, ser professor, eu acho que isso vai ser muito útil, principalmente na clínica. Eu estar atendendo o meu paciente e observar as reações, o que está acontecendo ali, a fala, tanto da pessoa, quanto a minha. Então mudou, porque realmente abriu os meus olhos pra vida. E por mais que eu fotografe em preto e branco eu adoro as cores, aí eu reparo mais nelas, o que combina, o que está bonito e por aí vai. Então, me fez enxergar o mundo de uma maneira muito melhor.

 

EXTRA!Ordinário: Quando você abrir uma clínica, e seguir sua profissão de psicólogo, ainda vai continuar fotografando?

Absolon: Sim, pra vida toda.

 

EXTRA!Ordinário: A gente já falou sobre o que faz uma boa foto, e agora, o que faz um bom fotógrafo?

Absolon: Tem um escritor que eu sou muito fã. O nome dele é Charles Bukowski. Eu comecei a ler ele na adolescência e, provavelmente, vou revisitar a vida inteira. Tem um poema dele que é justamente sobre essa questão de como ser um bom escritor. E não sei se estou copiando ou se li e adotei um pouquinho e hoje é uma verdade na minha vida. Mas o que acho que faz um bom fotógrafo é amar várias pessoas, sair pra beber, seja álcool ou não, rir bastante, fazer muito sexo, não estar com alguém, curtir o momento sozinho, ler e ir ao cinema, tomar sorvete, deixar o sorvete derramar e sujar as mãos, comer as coisas que você gosta, experimentar coisas novas e não gostar delas, sabe? Viver a vida mesmo. Quanto mais você vive a vida do seu jeito, melhor fotografo você vai ser. Por que você vai se conhecer e acho que quanto mais a gente se conhece, a gente pode fugir um pouco. O fotógrafo precisa fugir um pouco do narcisismo, e ele precisa reconhecer que existem outras pessoas, e não acho que seja uma tarefa fácil você olhar pro outro e saber que ali tem uma história de vida que é totalmente diferente da sua. Quanto mais você vive a vida e se abre pra ela, mais você vai ser um bom fotógrafo e você vai se abrir pros outros e para as coisas da vida, seja registrar um casamento, planta, natureza. É porque você se abriu pra viver aquele momento ali.

 

EXTRA!Ordinário: E você se acha um bom fotógrafo?

Absolon: Sim. Estou melhorando cada vez mais. Pra dizer a verdade, venho registrando cada vez melhor os afetos. Fotografando menos e registrando mais.

 

EXTRA!Ordinário: Você já se frustrou com a fotografia alguma vez?

Absolon: Já, inúmeras vezes. Quando eu faço uma foto ela vem cheia de expectativa, certo? Eu registrei aquilo, foi importante pra mim. Importantíssimo. Aí se as pessoas não valorizam… Por exemplo, uma coisa que acontece muito na minha conta do Instagram. Existem basicamente três tipos de fotos lá: um tipo pessoal do meu dia a dia, como selfie no bar com os amigos, essas são mais tiradas pelo celular; outro tipo são as fotografias de rua, que é quando eu saio com a máquina na mochila e registro; o terceiro tipo seriam os retratos/fotografias femininas. Basicamente, as mulheres estão nuas ou seminuas. Existem algumas frustrações, porque, às vezes, é angustiante ver que uma foto que para mim é sensacional de um registro na rua, que é cheio de riqueza, de momento, receber bem menos curtidas do quê uma bunda. E eu não sei até que ponto isso é culpa minha. Tipo assim, colocar alguma legenda ou alguma coisa que vai valorizar mais a bunda do que a rua. Mas, no fundo, eu prefiro a rua e eu gostaria que as pessoas preferissem também. E essa é uma frustração minha. Eu queria que a rua vendesse mais do que os corpos.

 

EXTRA!Ordinário: Houve algum momento em que você estava tirando uma foto e aquilo te transmitiu um sentimento muito forte?

Absolon: No final do ano passado, em dezembro de 2017, eu tive a oportunidade de fotografar o parto de uma amiga minha. Ela pariu em casa, no apartamento dela. E desde que eu soube que ela estava grávida houve um convite. Foi algo muito natural, porque a gente é muito amigo. Ela é uma das minhas melhores amigas e eu queria fotografar o parto dela. Na semana ela falou “vai ser essa semana, eu estou sentindo, ele está me avisando”, e eu: “beleza”. Meu celular não estava pra vibrar como de costume e a máquina sempre carregada na mochila, se eu saísse para rua ou qualquer lugar eu levava a máquina, porque ela podia me ligar a qualquer minuto. E aí teve uma bela manhã de quarta-feira de dezembro que eu acordei com ela e o marido dela, que também é um grande amigo meu, me mandando um áudio. “Estou sentindo algumas contrações aqui, mas acho que não vai ser hoje”. Minha aposta é que seria na quinta feira, a dela é que seria no domingo. “Mas qualquer coisa a gente te avisa”. Até aí tudo tranquilo, eram umas 9h da manhã. E quando deu 11h30 o marido dela me falou que estava preparando as coisas para o parto, a piscina daquelas infláveis, essas coisas assim, e perguntou se eu podia ir registrar. Eu disse “estou indo”. Eram umas 11h30 e eu pensei “vou almoçar e depois eu vou”. Quando eu cheguei lá já eram 12h30. Eu toquei a campainha e demorou alguns segundos para abrirem a porta. E ele falou: “você chegou na hora”. Quando eu entrei no apartamento, ela estava escorada no sofá, meio que de quatro e gritando com expressões de dor muito forte, o bebê saindo. Só deu tempo de pegar a máquina na mochila e começar a fotografar. Nem deu tempo de ajeitar as configurações direito e o rostinho dele já estava saindo. Aí fiz algumas fotos que eu vi que estavam uma merda, pois tinham saído muito escuras. Então eu configurei de fato e passei a registrar.  Eu fotografei o bebê saindo, as expressões dela, o pai pegando o bebê no colo, muito sangue no apartamento. Foi muito forte. Essa criança tem umas quinhentas fotos daquele dia, tem vídeo. Então, foi muito emocionante. Depois que eu consegui parar pra respirar e eu sentei, me deu uma vontade muito grande de chorar. Infelizmente não chorei, é algo que eu estou me devendo. Eu comentei com eles. Vai chegar o dia em que eu vou estar sentado pensando na vida e eu vou chorar por esse momento. Não é só o início de uma vida, é tudo, é alguém se tornando pai de novo, mãe mais uma vez. Foi algo muito importante. É uma consolidação de amizade.

 

EXTRA!Ordinário: E alguma vez você já chorou ao fotografar?

Absolon: Não, mas eu tenho outro momento que é importante. Eu tenho uma avó, e quem não tem? Viva ou morta. A minha está viva. E desde que eu me entendo por gente ela está ameaçando que vai morrer. “Ah, que eu vou morrer”, “não vou durar muito”, ela vive falando esse tipo de coisa pelos cantos. E a gente sempre dizendo “Ah, porra nenhuma, você vai enterrar todo mundo”. E está enterrando mesmo, porque um monte de gente morreu aí e ela esta firme e forte. E eu nunca tinha tirado uma foto dela. Uma ex-namorada minha, que tinha um carinho muito grande por ela e foi minha primeira namorada, perguntava: “já tirou uma foto de vó?”. E eu: “não, nunca”.  E aí eu cheguei na casa da minha avó e falei: “Estou com a máquina aí e vou tirar uma foto da senhora”, e ela falou assim: “ninguém vai querer ver uma foto dessa coruja velha”. “Pois bem, se a senhora está sempre ameaçando que vai morrer, vai que morre mesmo e eu nunca tirei uma foto, por favor, senta ali no banco”. Fiz a bendita foto. Linda, não é linda por que eu tirei, mas é por que ela está sorrindo, ela está olhando diretamente pra mim. E eu revelei a foto e coloquei na parede do quarto. E, porra! É um momento que significa muito pra mim, registrar a minha avó. Enquanto a chorar, é isso. Em relação a uma foto. No dia que a velha morrer eu estou fodido. A foto está no meu quarto. É a primeira coisa que você vê quando entra, está na entrada mesmo, provavelmente vou me derramar em lágrimas.

 

EXTRA!Ordinário: Consegue pensar em alguma coisa que te faz falta? Algo que você já teve um dia e hoje não tem mais?

Absolon: Eu não consigo pensar numa falta. Não me sinto completo, mas aqui com vocês não consigo pensar em alguma coisa que me falte. Sei falar dos meus desejos. Eu desejo um dia publicar um livro, ser famoso por conta das minhas fotografias, ser um bom professor, conhecer um monte de gente nova que faz um monte de coisa boa pra minha vida, estar cada vez mais próximo dos meus amigos e viver momentos incríveis com eles, beber mais vinho, beijar mais na boca, passar mais momentos sozinhos.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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