entrevistas

A vida pede força, coragem e confiança
Com câncer de mama há nove meses, Maria das Graças acredita que cada experiência de vida é uma lição

por: Andressa Oliveira, Tainara Menezes

Maria das Graças estava em pé na sala de TV da Casa do Amor enquanto apresentava a instituição. Foto: EXTRA!Ordinário.

 

De vez em quando a vida nos deixa surpresas e nos permite conhecer pessoas, capazes de nos mostrar o quanto a vida é frágil e forte ao mesmo tempo. Onde há vida humana há relatos de experiências, vivenciais.  Foi em uma casa de apoio a pacientes com câncer que essa história nos encontrou. Em um dia comum decidimos conhecer a Casa do Amor que acolhe pacientes com câncer há 13 anos em Vitória da Conquista – BA, garantindo que essas pessoas consigam atendimento e tratamento adequado. Os silêncios e os olhares nos corredores daquela casa já nos prometiam histórias incríveis.

Com um olhar sereno, os cabelos curtos, as sobrancelhas falhas, um tom de pele meio pálido e a voz rouca pelo tratamento das quimioterapias, Maria das Graças Soares, de 64 anos, foi a primeira pessoa a nos dar boas-vindas e mostrar como funcionava as atividades no interior da casa. Os olhos dela eram pequenos, mas revelavam sentimentos profundos. Após conhecermos todo o ambiente, perguntamos a ela se poderia conversar conosco e a resposta foi positiva.

Caminhamos até chegar embaixo de um enorme pé de ciriguela. Segundo ela, esse é o seu lugar preferido na casa, por ter sombra e ar puro. Ao iniciar nossa conversa, Dona Maria nos disse que guardava consigo muitas histórias. Contou que era cuidadora especializada de pessoas que tinham câncer e que, em maio de 2017, ela descobriu que tinha câncer de mama. Deixou o próprio marido em São Paulo, entrou em um ônibus e chegou na rodoviária de Vitória da Conquista, em 2017, com apenas dez reais no bolso. Uma mulher, uma doença cruel e uma história de vida incrível embalam as perguntas do blog Extra!ordinário nessa entrevista.

 

EXTRA!Ordinário: O que significa para você lutar pela vida?

Dona Maria: Eu não luto pela minha vida, porque eu tenho um grande Deus. Só de Ele me dar a vida eu não luto por ela, eu já tenho ela de graça. Agora, o que a gente faz é procurar o melhor meio de sobreviver, mas eu não luto pela vida não. Eu vivo um dia atrás do outro de acordo com o que me acontece. E se hoje eu tiver o que comer agradeço a Deus e, se não tiver, eu agradeço também. Essa é a minha forma de viver, não sei se está errada, mas é a minha.

 

EXTRA!Ordinário: Quando você descobriu a doença?

Dona Maria: Eu descobri a doença em maio do ano passado. Eu cuidava de um idoso de 96 anos em São Paulo e no final do dia, quando fui tomar banho, me lavando, senti uma diferença na mama e aí eu falei: “alguma coisa de errado está acontecendo”. Pedi um dia de folga para o filho do senhorzinho para ir ao médico. Quando cheguei no médico não deu outra, fiz o exame e realmente ele constatou o câncer de mama. O médico aconselhou que eu parasse de trabalhar, porque qualquer movimento brusco poderia agravar o problema. Aí eu pedi as contas no serviço, já conhecia aqui a Casa, então eu vim pra cá. Chegando aqui, conversei com Carminha [administradora da Casa do Amor] que eu não tinha casa, não tinha família e ela me disse: “você está na sua casa e nós vamos ser a sua família”. Já faz 9 meses que eu entrei aqui e não quero mais sair. Agora em março vou fazer a retirada da mama no Hospital de Base e aí vou procurar uma casinha para morar.

 

EXTRA!Ordinário: Como você enxerga o câncer?

Dona Maria: Um médico me disse há alguns anos atrás, quando minha mãe morreu também com a doença, que eu tinha as células cancerígenas no corpo e que elas precisariam de uma grande alegria ou de uma grande tristeza para abrir. Eu não cuidei muito. Quando descobri, vim logo pra cá e comecei o tratamento com quimioterapias, mas, no meu raciocínio eu não me imagino nem velha e nem doente, eu me imagino nova e saudável.

 

EXTRA!Ordinário: Além da estadia, o que mais você encontrou na Casa do Amor?

Dona Maria: Além da estadia eu tenho tudo. Tenho o amor e o carinho de Carminha, que é a dona da Casa. Tenho o carinho das enfermeiras, tenho o carinho dos colegas. Tudo o que eu preciso, eu tenho aqui dentro.

 

EXTRA!Ordinário: O que você deixou para trás?

Dona Maria: O que eu deixei para trás foram empregos bons que eu tive, amigos, porque depois do meu problema poucos vêm aqui me visitar. Muitos que eu pensei que fossem ficaram para trás, e deixei também um marido para trás. Eu preferi deixar ele fora do problema. Depois de 15 anos de casada, eu descobri a doença e aí, quando cheguei em casa um dia, ele tinha arrumado outra pessoa. Aí eu preferi deixar ele lá e vir embora pra cá. Foi essa a minha grande tristeza que fez a célula do câncer abrir.

 

EXTRA!Ordinário: Como era a vida antes de estar aqui?

Dona Maria: Fiquei 25 anos em São Paulo sem vir aqui. Lá eu casei e trabalhava muito. Fiz curso no Hospital do Câncer para entender a doença e hoje eu cuido dela, eu não deixo ela cuidar de mim. Cuidei de várias pessoas, cuidei de uma moça que tinha câncer no útero e tinha três filhos. Ela acabou falecendo. Eu queria ter ficado com as crianças, mas o pai acabou levando eles para outro bairro. Logo em seguida descobri a doença, descobri que meu marido tinha outra e aí falei pra ele que não tinha problema. No outro dia eu já estava dentro do ônibus para vir pra Conquista, aí cheguei aqui sem eira nem beira com dez reais no bolso. Fui procurar a casa da minha irmã. Nesse período todo meus pais faleceram e ela vendeu a casa do meu pai, aplicou o dinheiro, comprou um bom apartamento e mandou os filhos para os Estados Unidos. Ela tem uma vida tranquila, sossegada e eu fiquei aqui sem ter pra onde ir. Ela sabe que eu estou aqui, mas nunca veio me ver.

 

EXTRA!Ordinário: Quais os empregos que mais marcaram sua vida?

Dona Maria: Meu primeiro emprego foi em uma firma de medicamentos chamado Distritar. Eu sempre gostei de trabalhar, ter minhas coisas. Passei por vários lugares: Móvel, Johnson e Johnson Brasil, Banco Econômico, Motel Las Vegas, Hotel Hollywood. O trabalho eu sabia fazer, o que me importava era a grana, o que me pagava mais eu estava indo, porque na época eu tinha um pai e uma mãe idosos para cuidar, precisava de dinheiro.

 

EXTRA!Ordinário: Qual é o seu maior sonho?

Dona Maria: Eu tenho um sonho de ter minha casa, minha casa própria. Esse é o meu maior sonho, porque eu nunca tive uma casa minha. Quando eu era jovem eu comprei uma casa e passei no nome do meu pai e da minha mãe, porque eu era muito jovem e não podia passar a escritura no meu nome. Eu fui embora pra São Paulo e deixei minha irmã cuidando dos meus pais. Aí eles faleceram e ela vendeu a casa que eu tinha dado para o meu pai e não passou nada para ninguém. Em São Paulo, eu morava de aluguel com meu marido.

 

EXTRA!Ordinário: Diante da sua experiência de vida, caso tivesse uma chance de mudar o seu passado ou prever o futuro, qual escolheria?

Dona Maria: Prever o futuro, o passado já passou. Ver o futuro pra mim é mais importante, tenho muita vida pela frente ainda. Eu vejo o futuro com força, perseverança e vou vencer.

 

EXTRA!Ordinário: Um lugar que você quer conhecer?

Dona Maria: Quando eu terminar o tratamento quero conhecer a Chapada da Diamantina. É pra lá que eu quero ir depois que eu operar.

 

EXTRA!Ordinário: Como você se descreveria em palavras:

Dona Maria: Boa, bonita e barata (risos). Eu não sou gastadeira, como o que tiver e passo qualquer coisa.

 

EXTRA!Ordinário: Qual foi o dia mais feliz da sua vida?

Dona Maria: O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que eu entrei aqui nessa Casa. Aqui você vê os problemas dos outros e você fala: “eu não tenho nada, eu não estou sofrendo”.

 

EXTRA!Ordinário: Qual a primeira comida que vai provar quando terminar o tratamento?

Dona Maria: Um pavê. Aqui a gente não pode comer doce, é tudo light, nada com açúcar, de vez em quando eles me arrumam uma cocada, mas eu amo pavê.

 

EXTRA!Ordinário: Uma Saudade?

Dona Maria: Sinto saudade do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos quando eram crianças e da minha infância.

 

EXTRA!Ordinário: Superação é?

Dona Maria: Tudo.

 

EXTRA!Ordinário: Um amor?

Dona Maria:  O que ficou em São Paulo.

 

EXTRA!Ordinário: Para você onde fica o melhor lugar do mundo?

Dona Maria: Pra mim o melhor lugar do mundo é esse em que eu estou vivendo.

 

EXTRA!Ordinário: Qual a sua melhor lembrança de infância?

Dona Maria: É uma sainha azul de bolinhas pretas, um sapatinho preto de verniz, uma blusinha branca de babados e umas fitinhas de veludo que eu dancei na minha primeira festinha.

 

EXTRA!Ordinário: Um ídolo?

Dona Maria: Lucas Lucco. Lindo né? Nossa Senhora (risos)!

 

EXTRA!Ordinário: Uma música?

Dona Maria: Detalhes.

“Detalhes tão pequeno de nós dois,

São coisas muito grandes pra esquecer

E toda hora vão estar presentes, você vai ver.”

(Trecho da música que Maria cantou durante a entrevista).

 

EXTRA!Ordinário: Uma data?

Dona Maria: Dois do um de mil novecentos e cinquenta e quatro. A data em que eu nasci. Eu tenho saudade da data em que nasci.

 

EXTRA!Ordinário: Felicidade é?

Dona Maria: É um grande amor. Quando se tem um grande amor se é feliz.

 

EXTRA!Ordinário: A vida é?

Dona Maria: A vida é como ela é. A vida é isso aqui que eu estou vivendo. O que foi ruim eu tirei e só deixei as coisas boas, a vida é o que já teve de bom e o que ainda tem de bom pra passar. Você só passa a entender a vida quando você passa a conviver com outras pessoas e cada um tem um sonho, uma realidade pra viver. Muitos aqui não sonham mais, acham que é só isso e acabou. Eu sonho em encontrar uma pessoa, eu sonho com amor também. Eu quero viver, não vou olhar pra trás, quero olhar pra frente. Gosto de dançar e é essa a vida.

 

As histórias estão aí para serem contadas e contar essa foi um dos maiores privilégios que a vida nos deu. Maria nos mostrou que a vida é sobre a graça de ter coragem, de ter esperança, de ser humana, de olhar o outro com amorosidade, de reconhecer a fragilidade e ao mesmo tempo permitir que as circunstâncias nos mostrem caminhos para que possamos fortalecê-la. É sobre correr riscos, mesmo que fiquem no caminho pessoas e amores, o que vale é manter a essência de ser o que é.

Dona Maria é uma entre tantas Marias com câncer e que se vêem abandonadas pelos familiares. Dona Maria é uma entre as muitas Marias que optam por viver um dia de cada vez, tirando dele o que foi bom. Dona Maria sabe que outras Marias também perdem seus amores, mas ainda assim tenta não perder sua própria companhia e seu sonhos. Dona Maria é como muitas Marias, apesar das dificuldades encara a vida com força coragem e confiança.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


Acesse o site anterior.
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia