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A vida de uma mulher taxista
Com muita dedicação, mulher trabalha como taxista na terceira maior cidade da Bahia

por: Brendon Eduardo

Time de taxistas do terminal rodoviário reunido, destaque para Naildes, a única mulher do grupo. Foto: EXTRA!Ordinário.

 

“Mulher no volante, perigo constante”. Esse antigo dito popular nunca esteve tão errado quando se refere à Naildes de Jesus dos Santos. Há cinco anos que Naildes é taxista. Apesar de ser uma profissão dominada por homens, ela levanta cedo todos os dias para ir ao terminal rodoviário de Vitória da Conquista (BA), determinada em trabalhar, levar seus passageiros, para assim ganhar pão de cada dia. A vida não é fácil e para Naildes, não é diferente.

 

EXTRA!Ordinário: Há quanto tempo a senhora exerce a função de taxista?

Naildes: Há cinco anos exerço a profissão.

 

EXTRA!Ordinário: Já trabalhou com outra coisa antes do táxi?

Naildes: Já sim. Tinha um salão de beleza, eu era cabeleireira.

 

EXTRA!Ordinário: Por que a senhora deixou essa profissão?

Naildes: Na verdade eu não deixei. Eu tive que deixar. Porque a profissão de taxista não fui eu que escolhi, foi ela quem me escolheu.

 

EXTRA!Ordinário: Por que a senhora acha que a profissão de taxista a escolheu?

Naildes: Por que eu não sabia dirigir, não era habilitada. Até então eu era uma simples cabeleireira. E de uma hora para outra eu tive que aprender a dirigir, entrar numa auto- escola, tirar uma habilitação, além dela ser uma primeira habilitação, ela tinha que ser remunerada pra exercer a profissão e eu tive que exercer a profissão.

 

EXTRA!Ordinário: Por que a senhora afirma que teve que exercer a profissão? Não teve nenhuma outra escolha?

Naildes: Não. Eu não tive outra escolha. A escolha era essa. Por motivos de obrigação e na época também, o pai dos meus filhos estava com problemas de saúde, cedo ou tarde ele teria que parar de trabalhar. Eu fiquei no lugar dele.

 

EXTRA!Ordinário: Hoje em dia, como é a relação com os seus colegas de trabalho?

Naildes: No início foi difícil, muito difícil. Teve preconceito, as pessoas acharam que eu não ia dar conta. Que eu ia bater o carro, esse tipo de coisa, que acha que mulher não tem capacidade. Mas depois eu mostrei para eles que tinha capacidade e hoje tenho o respeito deles.

 

EXTRA!Ordinário: Quais comentários deselegantes que a senhora mais ouviu deles?

Naildes: Logo no início da profissão, primeira vez que eu peguei o táxi para dirigir mesmo, o primeiro comentário desagradável foi: “Ela vai acabar batendo esse carro”. E nunca aconteceu.

 

EXTRA!Ordinário: Como lida com os passageiros?

Naildes: Da forma mais natural possível. Quando eles entram no carro e falam: “Nossa uma mulher taxista, que legal, eu nunca tinha visto, primeira vez”. Eu dou risada e os levo para o destino que eles querem.

 

EXTRA!Ordinário: Já ouviu algum comentário deselegante dos passageiros?

Naildes: Hum…já. Uma vez. Eu levei um passageiro e ele falou: “Mulher no volante, perigo constante”. Mas depois eu provei pra ele que a frase dele foi indelicada, aí eu o levei no seu destino, deixei o amigo dele e depois trouxe o rapaz que fez o comentário de volta para rodoviária. Aí, depois disso, ele pediu desculpas pelo comentário e disse que eu dirijo muito bem. Aí eu disse pra ele que eu já estava acostumada aos homens primitivos pensarem que as mulheres não têm capacidade denada.

 

EXTRA!Ordinário: Algum passageiro já recusou seu táxi pelo fato da senhora ser mulher?

Naildes: Não. Nunca.

 

EXTRA!Ordinário: Como lidaria caso isso acontecesse?

Naildes: Normal. Eu lidaria normal. Porque é uma escolha deles.

 

EXTRA!Ordinário: Transportando diversos homens em seu táxi, já se sentiu ou foi assediada por algum?

Naildes: Sempre. Pedem o telefone como desculpa de que vai querer o táxi de novo, mas como hoje em dia tudo é whatsapp, eles mandam mensagem, falam que sou linda, essas coisas, mas aí eu ajo com profissionalismo eexcluo.

 

EXTRA!Ordinário: Como lida com as dificuldades da profissão?

Naildes: Eu procuro lidar o mais normal possível. Na verdade, não tem muita dificuldade. A única dificuldade, que eu vejo, nessa profissão é o cansaço físico e mental, fora isso o trânsito, o risco de assalto. Mas eu procuro lidar o mais normal possível.

 

EXTRA!Ordinário: Como concilia as coisas de casa com as coisas do trabalho?

Naildes: Eu separo. Antes eu queria fazer tudo ao mesmo tempo. Hoje eu sou mais calma. Eu me dedico mais a profissão. Serviço de casa eu deixo para depois.

 

EXTRA!Ordinário: Recomendaria essa profissão para outras mulheres?

Naildes: Com certeza. Eu diria para elas não ter medo e enfrentarem as dificuldades e provarem que tem capacidade como qualquer homem. Porque o mesmo risco que o homem corre a mulher também está correndo.

 

EXTRA!Ordinário: Que mensagem gostaria de passar para a sociedade?

Naildes: Bom! Ser mulher não é um sinônimo de sexo frágil. Não é porque você é mulher que você não tem capacidade de dirigir um táxi, ou um ônibus, ou um caminhão. Mulher pode fazer qualquer coisa, basta ela querer. Ela pode tudo.

 

Se a mitologia grega pudesse ser reescrita, a deusa Héstia não seria apenas a deusa do lar, seria a deusa que motivaria as mulheres a irem atrás dos seus sonhos, irem atrás de ocupações fora de casa. Afinal a mulher conquistou seu espaço e deixou de se dedicar exclusivamente as tarefas domésticas. Naildes é a prova de que as pessoas podem fazer tudo o que quiserem desde que corra atrás dos seus objetivos com foco e determinação. Correr atrás de um sonho é como caminhar na areia, se cada passo for feito com dedicação, é possível parar e olhar para trás e ao fazer isso poderá ver as marcas, marcas essas que o tempo não pode apagar. Naildes reafirma essa frase ao trabalhar naquilo que gosta independente das dificuldades que enfrenta.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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