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O lazer de uma mulher na terceira idade

por: Cíntia Gonçalves, Joanne Nogueira e Karen Almeida

“(…) na hora que eu acho uma brechinha, eu corro pra cá”, diz Nalva, sobre o Centro de Convivência dos Idosos. Foto: EXTRA!Ordinário.

 

A terceira idade pode vir acompanhada de alguns empecilhos como limitações físicas e mentais para algumas pessoas. Segundo a pesquisa do professor Vegard Skirbekk, da Universidade da Colúmbia (EUA), cinco em cada seis pessoas querem chegar aos 80 anos. Mas o medo das complicações que acompanham essa fase também possui relevância. Para Lidinalva Novais Santos, 71 anos, isso, entretanto, não é algo que ela dê muita importância. Nalva ou Nalvinha, como também é conhecida, é residente do Bairro Patagônia, em Vitória da Conquista –Ba, e frequenta o Centro de Convivência dos Idosos que fica no centro da cidade, onde participa do programa “Vivendo A Terceira Idade”, no qual desfruta de atividades que antes não tinha acesso.

O projeto atende idosos da cidade entre 55 e 100 anos, dividindo-os  em grupos de acordo os bairros que moram. Cada grupo frequenta o Centro em um determinado dia da semana e desempenham sua vivacidade em tarefas como artesanato, escolarização, oficina de teatro, oficina de informática, canto em coral, grupo de contadores de histórias, bailes, entre outros eventos que proporcionam diversão e lazer. Nalva foi alfabetizada por meio do programa e conta sobre as experiências que obteve durante as práticas desenvolvidas em seus 20 anos de vivência no programa.

A idosa se mostrou bem-humorada e receptiva à entrevista, relatando histórias de infância e de acontecidos que construíram sua personalidade. Ao expor seus casos, Nalva revela um olhar nostálgico, mas não abandona o entusiasmo de poder aproveitar a terceira idade de uma forma bastante saudável. Durante o diálogo, demonstrou satisfação em estar ali.

 

EXTRA!Ordinário: O programa sempre funcionou aqui no centro da cidade?

Nalva: Não, nós viemos ter acesso à essa casa tem uns dez anos. Nós fazíamos as atividades do programa nos bairros, cada grupo tinha o seu. Mas como a gente conseguiu a casa na Prefeitura, desceu todo mundo pra cá. Cada dia reúne um grupo.

 

EXTRA!Ordinário: Para a senhora foi melhor essa mudança de local?

Nalva: Foi bom. Aqui nós temos acesso a tudo. Porque não podia levar nada daqui pros bairros, né? Aqui a gente tem as atividades, tem teatro, tem coral, contos de história…

 

EXTRA!Ordinário: Qual dessas atividades a senhora mais gosta?

Nalva: Oh, minha fia. Eu fiquei um pouco doente e me afastei, mas eu gosto muito do teatro e dos contos de história. Estudei quatro anos, formei na alfabetização.

 

EXTRA!Ordinário: Já na terceira idade?

Nalva: Sim. Tem uns quatro anos que um bocado de idosas formou em alfabetização. E aí eu encerrei minha carreira, porque agora eu não vou mais estudar, né? Meu caso é dançar!

 

EXTRA!Ordinário: A senhora tem alguma história relacionada à dança ou à alguma apresentação para nos contar?

Nalva: Sim. Já fiz apresentação de folclore, cantos de roda.

 

EXTRA!Ordinário: Do que a senhora mais gosta?

Nalva: Eu gosto do canto de roda. Eu danço carimbó.

 

EXTRA!Ordinário: Como são os encontros da senhora com o pessoal? A senhora tem amigos aqui?

Nalva: É muito boa. Aqui a gente tem uma união que vocês precisam ver. Fico doida para chegar logo o dia de vir. Na minha casa, meu marido sai pra rua, minha fia faz curso de enfermagem e na hora que eu acho uma brechinha, eu corro pra cá. Aqui nós temos brincadeiras, como nós fizemos agora, o bingo, baralho, dominó.

 

EXTRA!Ordinário: Como a senhora veio parar aqui, nesse projeto?

Nalva: Não, minha fia. É porque eu sou uma pessoa muito inspirada. Aí foi os convites pra paróquia que eu faço parte e eu vim, mas não tinha idade ainda. Eu vim com 50 anos. Hoje, eu faço parte da delegacia da defesa da mulher. Tudo através daqui. Aqui nós tem o conselho do estatuto do idoso.

 

EXTRA!Ordinário: O que marcou a vida da senhora aqui?

Nalva: Foi o aconchego das pessoas que me marcou quando eu vim pra cá porque dentro de casa era a solidão, tristeza. E aqui me marcou a forma com que eles tratam a gente, o jeito que a gente é recebida na sociedade. Inclusive, quase sempre nós recebemos grupos de estudantes, que vão para o baile com a gente.

 

EXTRA!Ordinário: Dona Nalva, como é dançar nos bailes?

Nalva: Vixe! É bom demais! É uma das coisas que eu mais gosto.

 

EXTRA!Ordinário: Tem alguma coisa que a senhora faz hoje em dia que a senhora não fazia quando era mais nova?

Nalva: O que mudou foi que eu aprendi mais. Como eu falei pra vocês, aqui eu estudei. Às vezes eu só assinava o nome e lia a bíblia.

 

EXTRA!Ordinário: O que a senhora gostaria que tivesse aqui, mas ainda não tem?

Nalva: Um professor de dança!

 

EXTRA!Ordinário: Do que a senhora sentia falta antes de vir para cá?

Nalva: Eu sentia falta de lazer. Apesar que eu viajo muito. Mas se eu pudesse, não ficava nenhum dia dentro de casa.

 

EXTRA!Ordinário: Qual o maior talento da senhora?

Nalva: É cantar.

 

EXTRA!Ordinário: O que a senhora queria ser quando era criança?

Nalva: Eu queria ser quem eu sou hoje. Mas nunca tive oportunidade, fui criada na roça. E naquele tempo não tinha essas coisas pra ensinar a gente. Me casei duas vezes fiquei viúva com 16 anos. Eu tenho um filho de 51 anos, tem um de 45, tem um de 43. Tinha uma filha que morreu, mas hoje eu crio uma neta.

 

EXTRA!Ordinário: Como é a senhora hoje?

Nalva: Hoje eu me vejo outra pessoa, eu tenho conhecimento da sociedade. Aprendi a tratar as pessoas como eu quero ser tratada.

 

Nalva precisou ir embora, mas nos deixou na sala onde fazíamos a entrevista com um sorriso no rosto e um abraço apertado, encerrando nosso diálogo. Idosos são fontes de sabedoria e ensinamentos de vida, e, nesse contexto, obtivemos uma troca de sentimentos e sensações ao conversar com Lidinalva e esperamos que você, leitor, sinta o mesmo ao ler esta entrevista.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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