Os desafios da maternidade e a solidão da mulher puérpera
por: Mariana Aragão e Thiago Araújo

No dia da entrevista, Lys (à direita da fotografia, com Rosa em seu colo) recebeu uma visita em sua casa de sua amiga Lay (à esquerda, segurando a pequena Violeta), que também vivencia o puerpério e suas consequências. Foto: EXTRA!Ordinário.
O nascimento de uma criança pode significar um momento alegrador para uma família. Contudo, para a mãe do bebê recém-nascido, nem sempre essa chegada acontece de maneira harmoniosa. Em seu corpo, após o parto, é iniciada uma série de transformações hormonais, físicas e emocionais, em um processo de adaptação com o bebê e recuperação que exigem cuidados intensos.
A busca por esclarecimentos e o interesse nas vivênciasdas mulheresdurante o puerpério (nome dado ao período pós-parto),que envolve o aleitamento materno, a higiene do bebê e os cuidados necessários destinados às mães, são pontos discutidos nessa matéria peloblogEXTRA!ordinário.
Para contemplar a proposta, entrevistamos Lys Alexandrina, artesã, professora de História e mãe de Rosa, que hoje tem oitomeses de idade. Também escritora, Lys é proprietária do blogBilhetes para Rosa. Na apresentação de sua página na internet ela diz: “Esse é um blog que fala sobre medos e sonhos. Sobre o aprendizadoconstante que é ser mãe.”
Veja nossa conversa um tanto descontraída com Lys:
EXTRA!Ordinário: Dentro das dificuldades e desafios enfrentados no puerpério, quais seriam as mais impactantes ao seu ver? Poderia compartilhar um pouco da sua vivência?
Lys: Eu nunca tinha escutado essa palavra [puerpério] né, na minha vida. Quando eu engravidei que eu estudei muito sobre parto, sobre todas as coisas.Eu queria muito um parto respeitoso, aquela coisa toda, só que eu não fazia ideia do que vinha pela frente e também não pensava muito no depois. Eu sabia que seria uma coisa que ia transformar minha vida, ainda mais porque eu não tinha o desejo de ser mãe, então eu me preocupava muito com isso. Só que hoje eu percebo que ainda que eu estudasse super sobre isso não ia rolar, entendeu? (risos).
O primeiro problema de cara que eu tivefoi a amamentação, que foi foda. Foi assim, meu peito feriu, Rosa saiu já plugada em meu peito e eu falei: “ótimo, eu tenho leite e minha filha mama. Tá tudo certo. Vai ser lindo e beleza”. Só que, uma coisa também que só me dei conta esses dias, porque quando você vai parir, quando você chega ao hospital, existem muitos horários e dias, né: plantão, equipe médica, etc. eu peguei a pior equipe médica pra parir no Esaú e também, por ser em um fim de semana, você não tem um acompanhamento que teria durante a semana. Então, por exemplo, a consultora de amamentação só chegou na segunda-feira, que era o dia que eu já tava saindo. Eu passei sábado e domingo com Rosa mamando em meu peito e mamando errado. Ou seja, meu peito ia ferir. Então eu cheguei em casa gritando de dor, porque meu peitotava a fissura e muito sensível. Eu fiquei uma semana sem conseguir dara mama pra ela, e não tinha a manha de ordenhar… eu não sabia mesmo.Assim, né… eu tava aprendendo a ser mãe. E aí eu tirava um pouquinho pra dar no copinho.
Aconteceram dois episódiosbem angustiantes nesses quinze primeiros dias, que Rosa chorou sete horas seguidas, sem parar, e a gente não sabia o que era. A gente foi pra Pronto Socorro, tentou todas as coisas, de chazinho à massagem, Shantala, todas as coisas que eu pensei e que me indicaram. E no final das contas eu acho que era fome, porque ela não tava mamando. Pra mim foi a coisa mais difícil. E agora aconteceu de novo a mesma coisa.
EXTRA!Ordinário: Durante o período de amamentação, qual apoio você considera necessário para a mulher e em quê família e amigos podem cooperar nesse sentido?
Lys: Isso é o grande “x” da questão. Porque assim, pra uma mulher conseguir amamentar, ela só precisa de rede de apoio. Só que rede de apoio é uma coisa que não existe nesse mundo moderno. Eu tava falando inclusive essa semana, que eu passei por essa angústia tudo de novo, dor, dificuldade de amamentar… Daqui a pouco vocês vão ver que Rosa vai acordar e vai querer peito, e eu não estou oferecendo esse peito porque está machucado, e ele incha e dói pra caralho.
Eu amamentei Rosa exclusivamente pelos seis meses, iniciei a complementação alimentar só depois disso, e ela mama até hoje, e fiz isso muito sozinha. Tive apoio da minha mãe e da minha sogra no primeiro mês inteiro, mas depois disso eu não tive ninguém familiar. Tive amigos que sempre vêm aqui, que ficam um pouco com Rosa, mas pra aguentar a bad[gíria usada para se referir ao estado de alguém deprimido, triste ou chateado com alguma situação] nem meu companheiro, assim, de levantar à noite comigo… inclusive isso foi a causade várias brigas que a gente teve por conta disso, porque amamentar é muito exaustivo. É uma demanda de energia, é uma demanda física.Dá muita fome, uma fome insaciável, parece até um buraco negro que tem dentro da gente. Então, o que a gente precisa é de rede de apoio. E quando eu falo de rede de apoio, não é nem alguém que venha cuidar da criança. É alguém que venha fazer qualquer outra coisa que venha deixar a gente livre. Eu, por exemplo, cortei meu cabelo porque, quando eu vi que saí da maternidade e fiquei dez dias sem conseguir lavar meu cabelo falei: ‘vei, não dá pra ter um cabelo grande!’.Às vezes pra gente tomar um banho, pra gente conseguir fazer necessidades fisiológicas! (risos). Básicas, sabe? A gente precisa de alguém. E vem toda uma insegurança que é natural também nos primeiros dias. A gente precisa de rede de apoio, mas rede de apoio tá cada dia mais impossível.
EXTRA!Ordinário: As campanhas de incentivo àamamentação, feitas geralmente pelo Ministério da saúde, podem ser consideradas completas e importantes quanto ao tratamento do assunto?
Lys: Sim. Inclusive o Ministério da Saúde tem uma preocupação muito grande porque no Brasil o índice de mulheres que amamentam é muito ridículo. As mulheres, em grande parte, amamentam somente 45 dias exclusivos. E tem uma lei que fode tudo.
O Ministério da Saúde diz que a gente deve amamentar exclusivo até os seis meses, só que a gente tem uma lei que só ontem ou anteontem foi realmente aprovada para contemplar todas as mulheres e não só quem era funcionária pública [a licença-maternidade para celetistas, ou seja, paras as mulheres que têm vínculo empregatício regido pela CLT, deve passar de 120 para 180 dias. A proposta foi aprovada na quarta-feira, quatro de abril, na Comissão de Assuntos Sociais do Senado]. Então não é todo mundo que desfruta. Eu, por exemplo, não fui amamentada os seis meses porque minha mãe teve que voltar [ao trabalho] aos quatro, entendeu? E aí, assim, de informação eles dão muito. Só que temos um problema: todo mito que se construiu em torno disso, né? “Leite é fraco”, “Só leite não sustenta”. Às vezes as pessoas vão buscar informações das pessoas mais velhas, que já foram mães e tal.
Então, ou você buscaessas atualizações por você mesmo, e aí você compra uma briga e fala: “Não, hoje mudou e o mais importante é amamentar e não dar comida antes, pois o bebê não está preparado e tal e tal”. Há essa preocupação,mas existe um recorte de classes também, que acho importante a gente levar em conta. Porque, por exemplo, pra amamentar é muito fácil pra uma mulher rica. Que não trabalha… amamentar exclusivo, fazer todas as coisas… criação com apego, por exemplo, que foi uma coisa que eu escolhi e que é muito difícil pra mim que trabalho, que dou conta de mil outras coisas, que não tenho uma babá vinte e quatro horas por dia, entendeu? Então a gente precisa considerar a condição de vida dessa mulher, sabe?
Mas, existe cartilha, existe tudo. Aqui em Conquista a gente tem o banco de leite que é maravilhosíssimo!Inclusive, quando eu tava com dificuldade de amamentar fui lá.E até quem não teve dificuldade, porque a gente vive insegura e elas [pessoas que trabalham no banco de leite] são maravilhosas para orientar. Fui doadora de leite também durante um tempo e isso é importante também, né! E é o único lugar que a gente tem assim… hoje eu acho que já existe consultoria de amamentação particular, mas é custoso. E aí, graças a Jah, a gente tem esse serviço público. É só ir no Hospital Esaú Matos, de segunda a sexta, que lá tem toda orientação possível.
EXTRA!Ordinário: Como você lidou com a autoestima e as cobranças durante o puerpério?
Lys: Ah, essa parte é desesperadora! Eu, por exemplo, me senti a mulher mais incrível do mundo grávida. Pô, tô carregando outra pessoa dentro de mim, véi, tenho a capacidade de fazer isso, sabe? Gerar outro ser, e tal. Então eu me sentia maravilhosa. E eu acho que fiquei linda mesmo! (risos). Mas depois que eu pari, gente… depois que a gente pare, tem essa queda de hormônios e aí vai tudo pro espaço… a libido… aí sexo é uma coisa que não existe mesmo! A cabeça da gente trai muito a gente.
E tem a questão também que hoje eu habito um outo corpo, que não era meu, nunca foi meu. Então eu tento olhar pro espelho e reconhecer essa Lys que eu sou agora, que é completamente diferente. Antes eu não tinha espelho em casa, pra vocês terem uma ideia. Só tinha o do banheiro que eu via só o rosto, porque eu não queria olhar para o meu corpo, né?
Ouvi piadas de familiares que falavam “Ué, você esqueceu o outro aí dentro?”, essas coisas super desagradáveis que a gente não precisa ouvir, mas ouve. Então essa questão da autoestima é muito foda, muito, muito, muito mesmo! Acho que acontece com quase cem porcento das mulheres.
Rosa nunca dormiu uma noite inteira… e é esse cansaço constante, é você olhar e falar assim:“gente, tem tanta mulher maravilhosa”. E assim, tem a cobrança da sociedade de dizer “Você tem que estar linda, porque senão seu marido te larga” e “Você tem que estar linda porque outras mulheres estão lindas”. Inclusive, eu fiquei muito na bad. Eu que me coloco como feminista, por exemplo, de ficar pensando que nesse tempo todo eu precisei, e quis várias vezes, de uma aprovação masculina. Eu quis ser desejada, sabe? Eu quis passar na rua e ouvir um psiu. Uma coisa que eu abominopra eu me sentir bonita, sabe? Mexia muito com essa questão, daquilo que eu defendo e da bad. E aí é muito triste esse processo.
EXTRA!Ordinário: Em sua percepção quanto à importância de se debater esse assunto, você considera que há fatores que impossibilitam essa conversa na sociedade?
Lys: Tem vários. Acho que a pior coisa é porque a galera acha que é frescura isso, sabe? Porque todo mundo exige que a gente seja, assim, supermães mesmo, entendeu? E eu não quero ser super nada. Eu sou uma pessoa que sofro todas as coisas. Queria ter meu puerpério amenizado. E aí, por exemplo, minha mãe que respeitou muito as minhas escolhas, pois fiz muita coisa diferente do que ela fez na criação minha e do meu irmão. Porém minha mãe diz que não posso reclamar porque se eu fiz essas escolhas eu tenho que aguentar… E isso é cruel. Eu falo isso pra ela: “Você é cruel, mamãe, de dizer um negócio desse”. E aí, acho que são setenta ou oitenta porcento das mulheres que entram em depressão pós-parto. E tem o baby blues, logo depois que a criança nasce. Eu tive muito medo de depressão pós-parto. Muito! Eu chorei compulsivamente todos os dias depois do parto. Meu parto foi muito “badnoso” [neologismo usado por Lys para dizer que seu parto foi conflituoso] então eu sofri muito pra digerir toda a situação. E quando eu falava isso pra minha mãe, ela não entendia como uma questão emocional. Entendia como algo espiritual, como forças malignas que estão querendo fazer com que você fique nessa condição e não cuide de sua filha. Então falta às pessoas saberem o que é o puerpério e saber o que toda mulher passa. Boto fé que minha mãe passou por isso, mas que ela não faz nem ideia.
E tem as coisas dos papéis que fode mais ainda. A responsabilidade exclusiva que é colocada como nossa para cuidar dos filhos… inclusive de ouvir essas coisas “ah, mas você não pode reclamar porque senão você vai acabar perdendo o seu marido”. Não, eu posso reclamar, ele é pai assim como sou mãe.
EXTRA!Ordinário: Você demonstra ser uma pessoa bastante ativa, de fazer diversas coisas, como o seu artesanato. Com o pós-parto, como você lidou com a situação?
Lys: É…. Pra mim, a maternidade se resume numa palavrinha bem difícilque é solidão. É muito, muito solitário mesmo. Porque ninguém consegue ter a dimensão de tudo que a gente passa, né? Minha vida parou por completo. Fui demitida do trabalho, e isso acontece com boa parte das mulheres depois do parto. Tenho um filho agora e tenho que ter uma fonte de renda, tenho que buscar outras alternativas. A maioria das mães acabam caindo nissoque a gente chama agora de empreendedorismo materno, de um jeito bem bonito. São mães que inventam alguma coisa pra também terem um tempo pra si que é importante.
A gente para ou para. Eu, por exemplo, não tenho condições de terceirizar o serviço, então tenho que fazer tudo. Ela depende exclusivamente de mim. Sou eu que paro, não é meu marido que foi trabalhar agora e segue sua vida normal, ele não tem nada que o prende. Se eu for fazer a coisa mais simples que seja, eu tenho que pensar num roteiro, preparar todas as coisas, quanto tempo vou gastar, se tiver chovendo já me impede de sair… enfim, todos esses fatores eu passo a considerar.
O Bilhetes pra Rosa. Nunca mais escrevi nada…era uma ilusão que eu tinha, né. Via mulheres maravilhosas, blogueiras, mães, na internet e tal. “Ai, quando eu parir eu vou fazer um texto por semana pra contar as minhas impressões da maternidade”. Acho que não lembro a última vez que atualizei o blog e eu tenho várias coisas na cabeça que eu preciso sentar praescrever, mas que não tenho tempo.
EXTRA!Ordinário: Quais grupos de apoio às mulheres puérperas você indicaria em Vitória da Conquista?
Lys: Presencial eu ainda acho o Cirandeiras o melhor espaço, que é de apoio ao parto humanizado. Porque mesmo que a gente converse de coisas voltadas para o parto, a gente sempre acaba falando do puerpério, sempre divide alguma coisa. É esse momento da gente encontrar outras pessoas que viveram e passaram por essa experiência. Eu acho que aqui só existe esse. Agora, na internet, tem alguns grupos, por exemplo, o GVA, que é o Grupo Virtual de Amamentação, que é muito legal. Tem também o chamado Maternidade Colorida que eu acompanho sempre. Tem o PsiMama que é muito bom. O Militância Materna Ativa que eu gosto muito.
O puerpério ainda é um assunto pouco comentado, apesar da necessidade de sua discussão na sociedade. É um momento de extrema introspecção, fruto de uma enorme transformação emocional. Falar sobre maternidade é falar sobre vida, em todos os seus aspectos e especificidades. Gerar alguém é sublime, mas em detrimento de tantas questões sociais e culturais que oprimem e subjugam as mulheres, a maternidade em alguns momentos pode também ser definida por afastamento e desprazer. O nascimento de um bebê traz consigo uma série de construções e desconstruções para o “ser mulher” da mãe. Trata-se de se reconhecerenquanto mulher, de conhecer o novo corpo, a nova rotina, as novas responsabilidades, a nova realidade. É a filha que agora também é mãe.Mesmo que a vivência de cada mulher seja distinta, a delicadeza e os inúmeros cuidados exigidos com a mãe e com o bebê recém-nascido são imprescindíveis. A desconstrução de mitos, as redes de apoio entre familiares e amigos para a mulher puérpera e os espaços para debate e esclarecimentos, são elementos que colaborariam para uma melhor atenção ao assunto e melhor tratamento deste.

