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Vida comum também é extraordinária

por: Raffaela Pacífico e Waldirene Amaral

Lindaura conta como teve que abandonar os estudos para ajudar no sustento da família. Foto: EXTRA!Ordinário.

 

O que seria uma vida bem-sucedida? Dinheiro, fama uma vida marcante que todos lembrem? Essa é a visão de muitos, porém, o sentido da vida humana é algo particular, não possui uma fórmula, na qual o simples pode ter muita importância. Nessa perspectiva, entende-se que o sentido da vida não pode ser definido pelos padrões expostos, mas construído individualmente na essência do que cada um é.

Lindaura Santos tem 56 anos e é um belo exemplo de quem possui diversas formas de sorrir para a vida. Mesmo com a vontade de continuar a estudar, teve que começar a vida profissional cedo para poder ajudar a família. Da zona rural foi para São Paulo, casou-se e constituiu uma família. Teve quatros filhas, porém, perdeu uma quando a criança tinha apenas seis anos de idade. As outras já são adultas, duas estão casadas, Simone Santos, 36 anos e Silmara Rocha, 26 anos, ambas moram próximas a Lindaura, a mais nova, Mariana Santos, 15 anos, ainda mora com ela. Atualmente ela mora em Vitória da Conquista, junto com o esposo, o sobrinho que ela cuida desde criança e a filha mais nova. Mesmo sem condições de saúde, Lindaura cuida há 17 anos do sobrinho que tem microcefalia, ele nasceu em Vitória da Conquista e perdeu a mãe quando ainda era uma criança, como não havia ninguém disposto a cuidá-lo, ela se responsabilizou por esse importante papel na vida de Adailton Rocha, 27 anos.

Lindaura deu uma pausa nas atividades domésticas, nos convidou para entrar em sua casa e nos permitiu ouvir o que tinha para contar sobre sua história.

 

EXTRA!Ordinário: Lindaura você poderia nos contar sobre como enxerga sua vida?

Lindaura: Eu realizei muita coisa boa. Graças à Deus eu tive pai e mãe que me educou, tive um bom estudo, tive coisas que mais ou menos eu sonhava conseguir, casei com a pessoa que eu escolhi, tive 4 filhas lindas (suspiro), mas Deus levou uma infelizmente.

 

EXTRA!Ordinário: O que o nascimento das suas filhas mudou em você?

Lindaura: Muda né, por que assim (pausa), a gente foi criada de uma maneira que o que a gente vive com os filhos da gente hoje, não é bem o que a gente gostaria. A gente queria um mundo melhor, a gente manda eles pra rua e fica com medo de acontecer alguma coisa.  Antes não, os pais da gente mandava a gente ir em qualquer lugar e não tinha medo, podia dormir de porta aberta e não tinha medo, no meu tempo foi assim, né. O nascimento dos meus filhos trouxe grandes mudanças, porque meus filhos me querem bem, até agora não tenho do que reclamar. Eu só tive filhas, mas com o passar do tempo eu ganhei um sobrinho de presente como filho. Ele tem deficiência e eu cuido dele com muito amor, apesar de não ser bem o que eu queria pra mim, mas Deus mandou de surpresa. Ele veio para a minha vida porque a mãe dele morreu logo quando ele era novo e aí ele ficou na minha mão, eu não queria ter essa pessoa em minha vida, mas foi a vontade de Deus, então estou aceitando.

 

EXTRA!Ordinário: Você acabou recebendo seu sobrinho como filho e sabemos que cuidar de uma pessoa deficiente não é fácil e você pegou uma responsabilidade que antes não era sua. Como você se sentiu depois que ele entrou na sua vida e o que você aprendeu com ele?

Lindaura: Eu acho que aprendi a ser mãe mesmo, sabe? Porque, se ele está doente, eu sinto como se fosse meu filho mesmo. Ele já mora comigo há 17 anos e (pausa) se ele está com problema eu sofro né, se uma pessoa atingir ou falar algo contra ele eu não gosto. É como se estivesse me atingindo, é como se fosse meu filho mesmo, sabe? Então ele é meu, é meu e de Deus (ela sorri). Mas confesso que às vezes eu reclamo, pois hoje em dia eu tenho meus problemas de saúde e tenho que cuidar dele e de mim, e às vezes não cuido bem nem dele e nem de mim.

 

EXTRA!Ordinário: Sobre essas dificuldades, você acha que elas vêm para fortalecer?

Lindaura: Sim, eu creio que fortalece. Pois mesmo sofrendo a gente fica preocupada com aquela pessoa. Essa dificuldade faz a gente correr atrás de uma boa saúde e de viver. Eu mesma peço muito a Deus para me dá uma boa saúde, pois tenho que cuidar dele e ele depende muito de mim.

 

EXTRA!Ordinário: E antes de ter filhos e responsabilidades com a família, quando era mais jovem, o que era viver para a senhora?

Lindaura: Sei não (ela sorri). Quando eu era nova, no meu tempo, eu sonhava que um dia eu seria uma pessoa grande, que iria estudar para ter uma vida própria, trabalhar e ajudar a família. E até que ajudei um pouco minha família, mas eu não estudei muito por isso. Naquele tempo, tinha que trabalhar ou estudar, os dois não dava e por isso eu tive que deixar os estudos, trabalhar e buscar recursos para a minha família.

 

EXTRA!Ordinário: Hoje em dia você diria que viveu mais para você ou para os outros?

Lindaura: Acho que eu vivi as duas coisas, sabe? Eu acho assim que se a gente faz as coisas a gente tem que fazer por amor, eu sempre ajudei minha família com amor. Eu sempre quis ajudar minha família, eles sempre cuidaram de mim. Meu pai tinha muito orgulho de mim, eu era como uma santa para ele. Ele agradecia muito por todas as coisas que eu fazia, ele se orgulhava de mim mais do que minha mãe. Infelizmente, ele morreu.

 

EXTRA!Ordinário: Tem algo em sua vida que te marcou e que você lembra de forma recorrente?

Lindaura: Sim. Eu tive 4 filhas e, infelizmente, perdi uma. Ela foi para Deus. Isso marcou muito em minha vida, pois ela ainda viveu um pouco comigo. Ela faleceu com seis anos de idade. Era uma criança ainda e de repente ela adoeceu. Eu corri atrás, tentei cuidar, fiz o que eu podia, mas infelizmente Deus resolveu levar ela de mim. Isso me fez mal, mas eu entendi que era a vontade de Deus. Eu acredito hoje que, quando uma pessoa vai embora, é uma vontade de Deus, pois chegou a hora dela e a gente costuma achar que a pessoa vai para nos machucar, mas é uma vontade de Deus.

 

EXTRA!Ordinário: Reparamos que a todo momento Deus sempre esteve presente em suas respostas, a senhora possui alguma religião?

Lindara: Eu sou católica.

 

EXTRA!Ordinário: Como a senhora enxerga a sua vida antes e depois de ter essa relação com Deus? Algo mudou?

Lindaura: Sim, hoje em dia eu agradeço muito a Ele. Eu tenho sérios problemas no joelho, eu sinto muitas dores e isso me faz clamar muito, então eu acho que por isso eu aprendi a agradecer muito por tudo. Toda vez que acordo, eu agradeço por estar viva e por ter acordado. Antes eu não me importava com essas coisas, eu aprendi a respeitar a Deus através das dores que já passei. Na palavra [Bíblia] diz que a gente só vai atrás de Deus através da dor, e é verdade. Eu acredito que Deus faz muito por mim, Ele já me deu muitas respostas. Ele está conosco e é tudo para mim (ela sorri).

 

EXTRA!Ordinário: O que significa viver para a senhora?

Lindaura: Eu acho que viver é amar.

 

EXTRA!Ordinário: Com base em tudo o que a senhora já viveu e contou para a gente, o que poderia dizer para os jovens que possuem sonhos e vontade de viver?

Lindaura: Estudar, é o único conselho. Através do estudo a vida vai ser levada adiante. E tem que levar Deus no coração também, saber onde vai e onde está. Essas duas coisas são essenciais para a vida.

 

Assim, o conceito de felicidade se diversifica. Pode ser que a vida comum não seja a primeira escolha que o indivíduo faz, mas o futuro não é uma regularidade mecânica. Situações diferentes do que se planeja sempre surgirão, afinal, a vida é como uma caixinha de surpresa e o que vivemos diariamente é sempre uma novidade, nunca saberemos o que virá amanhã ou daqui cinco minutos, a não ser que tenhamos uma bola de cristal. Viver é como experimentar diversos sabores com os olhos vendados, cada provação é um gosto diferente, acompanhada da sensação de uma nova experiência vivida, como se tivéssemos a todo momento uma nova história para contar. Por isso, viver é ser extraordinário e Lindaura é extraordinária.

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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