A luta das mulheres no contexto eclesiástico e os direitos humanos
“As religiões são compostas por mulheres e lideradas por homens. Elas são maioria nos espaços religiosos, mas ainda não assumiram papéis importantes”. Essas são as palavras da Pastora Lídia Maria de Lima durante uma entrevista. O senso demográfico de 2010 do IBGE aponta que dos 42,3 milhões de evangélicos no Brasil, 23,5 milhões são mulheres, compondo cerca de 55% da população evangélica do País. Embora os números revelem uma maioria feminina no ambiente eclesiástico, a realidade, entretanto, evidencia uma desigualdade exacerbada nesse mesmo espaço. Nele, muitas mulheres são silenciadas e submetidas a tomarem decisões que podem levá-las a opressão, e isso quase nunca acaba sendo percebido por elas.
É evidente que um conflito de ideologias emerge quando falamos da luta das mulheres e a Igreja, mas não deveria. Num contexto eclesiástico do modelo de cristianismo ocidentalizado, a mulher está posta num papel de submissão e, durante muito tempo, seus lamentos foram silenciados. O discurso da Igreja segundo o qual ela precisa aprender os afazeres de casa, casar, ter filhos e manter o casamento ignora, na maioria das vezes, as grandes inferências que podem ou não ser geradas a partir de tal discurso.
Para nós, muitas das “nascidas na igreja”, esse discurso é a base de toda educação que recebemos ao longo da vida, pois está enraizado nos princípios dos nossos pais e se torna uma verdade para nós. Eu não quero abarcar a exegese do termo submissão encontrado na bíblia, mas o desconhecimento desse contexto bíblico, até mesmo a falta de acesso a esse conhecimento levou muitas mulheres a serem submetidas a uma vida escravizada, em nome da felicidade da família, do marido, dos “princípios bíblicos” e, principalmente, de Deus. As mulheres, não tinham acesso ao conhecimento que os homens tinham – essa realidade tem sido redirecionada a partir de novas perspectivas, onde as mulheres estão nas universidades, nos cursos teológicos, nas tomadas de decisão da igreja, entre outras participações – e isso também é um reflexo do contexto social como um todo que as mulheres enfrentaram durante muitos anos e enfrentam até hoje.
Envolvidos no diálogo de que a mulher era inferior, somente os homens poderiam exercer funções de grande prestígio dentro das igrejas. Nos meados do século XX, ainda havia muitas restrições no que diz respeito aos direitos da mulher. O patriarcado manifestava a dominação masculina em todas as áreas e a Igreja não estava isenta desse sistema, pois reforçava ainda mais o sistema que oprimia e inviabilizava os direitos das mulheres. Durante muitos anos as mulheres vêm lutando para modificar essa realidade, mas ainda hoje essa dominação continua muito presente na sociedade. Muitas conquistas das mulheres são questionadas e ameaçadas.
O termo Direitos humanos nos faz pensar na imagem do homem, como diz Angélica Tostes: “É aquela velha discussão sobre dizer quando dizemos ‘homem’ estamos automaticamente incluindo as mulheres, sendo assim, não teríamos que reivindicar os ‘direitos humanos das mulheres’. O patriarcalismo tem uma grande influência em nossa sociedade, inclusive, nas perspectivas de direitos humanos quando se usa uma linguagem masculina”. Isso evidencia a maneira como nós mulheres somos tratadas na sociedade, na maioria das vezes inferiorizadas, subordinadas, sem direito e respeito por quem somos e pela nossa identidade de gênero. Sendo considerada inferior, como se não fosse um ser social, a mulher não participou da formação do Estado, por isso, instaurou-se um Estado patriarcal. A igreja, em linhas parecidas, foi constituída por uma teologia masculinizada, uma teologia que exclui a intelectualidade da mulher.
É importante destacar o fato de não se ouvir falar das mulheres que tiveram participação efetiva na reforma protestante, a exemplo da esposa do próprio Lutero, Katharina Lutero, ou Marie d’Ennetieres teóloga reformadora protestante belga, dentre tantas outras, que tiveram papeis importantes naquele contexto. O protestantismo abriu espaço, ainda que mínimo, para discussão sobre os direitos humanos, mas não podemos afirmar que o mesmo se preocupou com os direitos da mulher. Essa afirmativa é evidenciada com os mais de cem anos de luta pela igualdade e pelos direitos fundamentais das mulheres dentro das sociedades protestantes.
Ainda hoje, e eu parto do meu lugar de fala enquanto mulher protestante. Apesar de algumas mulheres evangélicas terem assumido cargos de maior importância – como o pastorado e da realização de palestras e eventos para mulheres – a violência contra a mulher, o estupro dentro do casamento, a saúde física e psicológica da mulher evangélica, são pouco pautadas no ambiente eclesiástico. Os dados revelam exatamente essa despreocupação da igreja quando uma pesquisa recente da Universidade Presbiteriana Mackenzie mostra que 40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas. Os discursos da igreja estão na maioria das vezes pautados na “vontade de Deus”.
Ruth (nome fictício), evangélica, de família evangélica, era carregada para o corredor da casa do seu vizinho, também evangélico, várias vezes na semana. Ele tocava em suas partes íntimas e dizia frases como “não se preocupe, não tira pedaço nenhum”. Dos sete aos dez anos ela passou por isso, até entender que se tratava de abuso. Cresceu, enfrentou e superou os traumas sozinha. A igreja nunca soube, porque nunca perguntou. A gente cresce ouvindo que a mulher não pode rejeitar o marido porque ele tem uma necessidade fisiológica, mas e quando o corpo da mulher não é respeitado?
Muitas mulheres são traídas, rejeitadas, submetidas a casamentos escravizadores, obrigadas a “serem do lar”, sem poder trabalhar e, com isso, se mantêm dentro do relacionamento na crença de que o companheiro vai mudar. O que me preocupa é quando essas mulheres cansadas de viverem dessa maneira desenvolvem transtornos psicológicos, traumas, depressão ou chegam ao suicídio. É preciso repensar os discursos pautados nos púlpitos, em nome da família perfeita. A mulher não pode ser submetida a manter-se em uma relação violenta e os direitos humanos da mulher devem ser respeitados. Os direitos humanos não são homogêneos e ainda não atendem aos muitos direitos da mulher.
Nós mulheres e, principalmente, nós mulheres cristãs precisamos ser viabilizadoras de novos horizontes, novos discursos no contexto eclesiástico, onde a mulher evangélica tenha voz, exerça funções importantes, e seja reconhecida não por seu gênero, mas pelo seu engajamento, pela sua intelectualidade. Precisamos ser viabilizadoras de novas posições para essas mulheres, nas quais elas entendam que não precisam se manter em relações abusivas em nome da felicidade da família, da Igreja, porque a sua felicidade, enquanto mulher também importa.

