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A LIBRAS segundo uma estudante de graduação

por: Gabriela Souza e Gabriela Matias

 

Samile explica sobre a LIBRAS

A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), originária da Língua de Sinais Francesa (LSF), chegou ao Brasil em 1857 com um professor francês, Hernest Huet e foi se aperfeiçoando ao longo do tempo, com gestos já utilizados na comunicação entre os brasileiros. Eventualmente, a LIBRAS desperta muita curiosidade na população do Brasil, principalmente porque, no quesito educacional, a mesma não é uma disciplina obrigatória na educação básica. Além disso, para os surdos, a Língua de Sinais é sem dúvidas majoritária, e a língua portuguesa entra como segundo idioma para facilitar a comunicação através da escrita e da leitura.

 

Para falar um pouco da situação educacional da LIBRAS no Brasil, entrevistamos Samile Santos Barros estudante de licenciatura em História (8º semestre) na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) Campus Vitória da Conquista- BA. Samile estuda LIBRAS há 6 anos. Como ela diz, o estudo dessa Língua é imprescindível, pois muitas pessoas não têm conhecimento que a Língua de Sinais é o segundo (2º) idioma oficial do Brasil. A estudante também explica que o seu aprendizado aprimorou os seus sentidos visuais.

 

EXTRA!ordinário – Qual a relação entre a Língua de Sinais e a Língua Portuguesa?

 

Samile Barros – Existe relação entre a Língua Portuguesa e a Língua de Sinais. Porém, olhando no contexto da pessoa surda, acredito que não possui tanta ligação. Claro que tem pessoas surdas que dominam a Língua Portuguesa, mas é difícil, são raros os casos dos surdos que sabem escrever o português correto.

 

Para toda pessoa que não escuta, ter uma proximidade com a língua falada é muito difícil, porque se ele não escuta como é aquele som, ele não sabe como se fala. Assim, o processo de alfabetização do aluno surdo, por exemplo, é muito diferente do aluno ouvinte, por todas essas questões.

 

EXTRA!ordinário – Você acredita que o aprendizado da LIBRAS impactou o seu cotidiano, assim como em seu conhecimento com relação a Educação?

 

Samile Barros – Quando eu comecei a estudar LIBRAS, não tinha muita noção desse mundo, que apesar de próximo é muito distante da sociedade, por estarmos o tempo todo falando. E quando você se vê em uma sala, com pessoas que não estão entendendo absolutamente nada do que você diz, muda completamente sua visão de mundo. Eu me tornei uma pessoa mais atenciosa e focada depois da LIBRAS… Tem uma brincadeira que a gente faz, que geralmente quem aprende LIBRAS fica com a visão periférica mais aguçada.

 

Onde eu vejo alguém balançando a mão de alguma forma já acho que é LIBRAS, fico de olho. São mudanças simples, mas que tem um impacto grande principalmente na vida acadêmica. Dentro da UESB a LIBRAS me ajuda muito, eu gosto disso.

 

EXTRA!ordinário – Qual a sua posição sobre a inclusão dessa Língua no ensino dos ouvintes?

 

Samile Barros – Deveria ser obrigatório, porque é a segunda Língua oficial do Brasil e pouca gente sabe. O que adianta a criança estar na escola, aprendendo a falar Inglês – que é uma coisa muito mais distante – e não aprender a Língua do colega surdo que está ali do lado, sem ninguém para se comunicar?

 

A LIBRAS deveria ser obrigatória em todas as escolas e todo mundo deveria saber essa Língua, porque é imprescindível. Eu trabalhei um tempo em um consultório médico e, vez ou outra chegava algum surdo. Era muito estranho porque as outras pessoas não sabiam se comunicar com ele, só eu. Por isso me tornei referência e, é importante que a pessoa surda tenha um norte dentro do local que ela está. Numa farmácia, por exemplo: uma surda precisa comprar um remédio e vai pedir para o (a) moço (a), simplesmente ele (a) não vai entender, ou talvez escreva da forma errada.

 

Às vezes, a receita não vem com letra legível, ele não tem como fazer um sinal para a pessoa da farmácia. Eu, conheço surdos que já tomaram remédios errados, inclusive, nessa situação de estarem querendo comprar algum medicamento para algo, não têm ajuda de ninguém naquele momento e acaba pegando um remédio que não tem absolutamente nada a ver com o que eles querem.

 

EXTRA!ordinário – Apesar do reconhecimento legal da Língua de Sinais por meio da Lei nº 10.436/2002 o uso dela ainda não compreende todos os surdos no Brasil. Quais ações, pelo seu conhecimento, seriam possíveis para integrar esse público na sociedade brasileira, levando em consideração que os mesmos acabam sendo excluídos de alguns direitos básicos como educação e trabalho pelo preconceito existente?

 

Samile Barros – Educar a sociedade. Porque tem pessoas surdas que moram nos interiores e a família não quer que elas aprendam a LIBRAS, isso é muito complicado. Muitos colocam o aparelho.  Não estou de forma alguma dizendo que não é necessário, acredito que deve ser usado, mas desde que tenham a possibilidade de conhecer sua língua natal.

 

Aprendemos português muito facilmente, falamos “papai e mamãe” desde pequenos, então porque uma criança que não escuta, não tem possibilidade de aprender sua língua? Ela é obrigada a falar, fazer leitura labial, isso é cruel. Existe um estudo que diz que na leitura labial, dependendo da pessoa que está falando, só dá para entender cerca de 20% do que foi falado. Por exemplo: se alguém tem um bigode, como a pessoa surda irá fazer essa leitura?

 

É complicado, mas eu acho que educação é primordial. É questão de levar para mídia, mostrar o que é LIBRAS, ensinar as pessoas sua importância e, ser um trabalho contínuo. Mas não acontece. Se aqui fosse igual aos Estados Unidos talvez acontecesse, inclusive lá tem universidades somente para surdos, essa cultura é mais avançada que aqui.       

 

EXTRA!ordinário- Sabe-se que o estudo de LIBRAS nas instituições de ensino é quase inexistente, inclusive, a maioria delas não possui um intérprete, o que acaba dificultando na formação educacional do surdo. E nas instituições que possuem esse profissional, muitos professores não se integram com o mesmo para facilitar o entendimento do aluno surdo. Você acha que esse posicionamento desencadeia a evasão educacional desse público?

 

Samile Barros – Falta de conhecimento. Algumas pessoas não sabem que LIBRAS é uma língua, acham que é linguagem, ou apenas gestos. LIBRAS é uma construção, tem as expressões faciais, os movimentos, ou seja, tudo é LIBRAS. Por exemplo, se eu fizer os signos do pênis e da água, apesar de parecidos, são duas palavras completamente diferentes.  Para o pênis colocamos dedos indicador e polegar levantados e esconde os demais, levando o polegar ao nariz. Para água faz o mesmo gesto, mas leva o polegar ao queixo e movimenta o indicador.

 

A inclusão tinha que começar desde pequeno dentro da escola, ensinando o alfabeto manual para [as crianças] crescerem aprendendo os sinais. Alguns professores não aprendem dar um bom dia em LIBRAS aos seus alunos, isso é um absurdo. Mas agora já é obrigatório [apesar de efetivamente não estar presente em toda rede educacional] ter intérprete nas escolas, a acessibilidade nunca esteve tão próxima da gente como está agora, estamos vivendo um século de mudança.

 

EXTRA!ordinário – Qual a sua dificuldade para aprender a LIBRAS, levando em consideração que a mesma não se utiliza das regras gramaticais da Língua Portuguesa? Como por exemplo, a conjugação dos verbos?  

 

Samile Barros – É difícil para aprender. Até hoje eu não entendo direito, é uma língua complexa, que precisa de muito contato com o surdo, é necessário praticar todos os dias. O contato com a pessoa surda é muito importante, é fundamental no processo de aprendizagem da LIBRAS, mas é difícil entender esse processo, porque nosso cérebro é condicionado a funcionar da forma que falamos. Quando transferimos para as mãos, é “uma novela”. Mas com prática tudo se consegue. Aprendemos falar inglês, porque não falar LIBRAS?

 

Alunos que tem o colega surdo na sala aprendem LIBRAS muito facilmente, porque já vão aprender na prática. Quando eu estava no auge da LIBRAS, eu era rodeada de pessoas surdas, era muito mais fácil. O contato é muito importante, aprender com uma pessoa surda é fantástico, porque é a língua dele. Acredito que professor de LIBRAS tem que ser surdo, porque você perde a oportunidade de ter esse contato próximo com a Língua de Sinais, de entender como ela vai te mostrar o mundo.

 

Porque é muito fácil aprender o ABC com uma pessoa falando o que é cada coisa. Agora, seu cérebro acostumar com uma pessoa sinalizando, mostrando e aguçando sua visão, é uma questão de prática. Graças a Deus tive a oportunidade de ter vários professores surdos. Infelizmente ainda é pouco, falta muito ainda de representatividade e reconhecimento da LIBRAS na sociedade brasileira, mas estamos na luta, é uma luta constante.  

Produto laboratorial da disciplina Gêneros Jornalísticos do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB


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