Processo de alfabetização de crianças com Síndrome de Down
por: Anna Clara Lôbo e Fernanda Nogueira

Roseane Morais ministrando uma aula.
A Síndrome de Down, também conhecida como Trissomia do Cromossomo 21, é uma alteração genética que ocorre durante a gravidez ou logo após o nascimento. O portador da síndrome apresenta um atraso cognitivo, como a demora para desenvolver a fala. Devido a isso, as crianças que possuem essa deficiência precisam estudar em escolas com o ensino voltado às suas necessidades, tornando assim, um ambiente inclusivo. Dessa forma, é necessário haver uma sala multifuncional que tenha equipamentos, materiais didáticos e atendimento educacional especializado para integrar pessoas com deficiência, promovendo o acesso ao ensino regular.
Com o objetivo de mostrar as dificuldades encontradas na alfabetização de crianças com Síndrome de Down, o EXTRA!ordinário conversou com Roseane Morais dos Santos, que em um determinado período de sua vida profissional trabalhou dando aulas para crianças com necessidades especiais, na Escola Municipal Raimundo Baia da Nova. Atualmente é professora do Ensino Fundamental I, graduada em Pedagogia e pós-graduada em Psicopedagogia e Neuropsicologia, que concedeu uma entrevista no seu local de trabalho, a Escola Municipal Frei Serafim do Amparo. A entrevistada falou sobre o processo de alfabetização de crianças com Trissomia do Cromosso 21 em escolas municipais e o modo de lidar com elas, além de comentar o relacionamento que construiu com os pais dos seus alunos durante a sua experiência.
EXTRA!ordinário – Quando você começou a dar aula para crianças com Síndrome de Down? De onde surgiu esse interesse? Ou foi simplesmente a escola que determinou que você daria aula para essas crianças?
Roseane Morais – Quando eu fiz a minha pós-graduação, já fui direto para uma sala multifuncional. A Prefeitura [Municipal de Vitória da Conquista] me mandou para essa sala e eu já sabia que iria trabalhar com crianças especiais, eu não sabia o quê e nem quem estava me esperando lá, mas eu sabia que eram crianças especiais.
EXTRA!ordinário – Como foi o processo de conhecer as crianças na sala?
Roseane Morais – No início foi assustador, foi difícil, porque eu não sabia exatamente por onde começar. Quando a gente sai da faculdade, não saímos prontos, já que é o nosso dia a dia, é na prática que vamos aprendendo a lidar com cada um deles, pois cada um tem uma natureza totalmente diferente.
EXTRA!ordinário – Em que escola você obteve essa experiência?
Roseane Morais – Escola Municipal Raimundo Baia da Nova.
EXTRA!ordinário – Como era a sua relação com os alunos? É necessário ter uma preparação de quem está ensinando?
Roseane Morais – Com a Síndrome de Down uma era mais tranquila, e a mais velha, que era negligenciada pelos pais, me trouxe muitos problemas. Inclusive, essa, a escola não pode ajudar. Nós tivemos que buscar ajuda fora da escola, e ela precisou ser retirada. Se a pessoa não estiver preparada para trabalhar com essas crianças, desiste, já que os profissionais que trabalham nessa área precisam desse controle, de informações, ajuda, e buscar mais conhecimento.
EXTRA!ordinário – Qual a preparação, e a formação necessária que os professores precisam ter para lidar com essas crianças?
Roseane Morais – Precisa ter Psicopedagogia e outras especializações também, porque tem vários cursos que poderiam fazer para trabalhar na multifuncional com essas crianças. As escolas que não têm salas multifuncionais, têm outros espaços maiores oferecidos, outros jogos, outras maneiras de trabalhar.
EXTRA!ordinário – Como você avaliaria a estrutura da escola para receber essas crianças com Síndrome de Down?
Roseane Morais – Nessa escola havia o espaço para receber essas crianças, a sala multifuncional era bem equipada. No entanto, a maioria das escolas municipais em Vitória da Conquista não estão preparadas para recebê-las.
EXTRA!ordinário – O que essas salas abrangiam, que demonstrava uma preparação para receber esses alunos?
Roseane Morais – Nós trabalhávamos com muitos jogos, computadores e brincadeiras. Havia o tatame, o alfabeto, diversos livros e histórias. Eu me vestia, me caracterizava, era um trabalho próprio para eles.
EXTRA!ordinário – Os materiais utilizados no processo eram lúdicos?
Roseane Morais – É um trabalho totalmente lúdico, porque a gente prepara aquela aula para eles, mas a criança com Down que escolhe o que quer fazer, pois ele não vai direto para aquela aula que você prepara. Você sempre vai com outros planos, porque é muito difícil ele aceitar o primeiro que você ofereceu para ele, já que ele tem autonomia para escolher.
EXTRA!ordinário – Qual era normalmente o plano que você preparava na sala para dar essa aula para eles?
Roseane Morais – Eu sempre começava com história, me caracterizava para poder chamar atenção deles, para deixá-los mais calmos, tranquilos ou então colocava música.
EXTRA!ordinário – Mas como eles reagiam a esse processo? Era mais tranquilo, eles gostavam?
Roseane Morais – Alguns deles ficavam calmos, outros começavam a gritar. O que gritava muito era um dos que tinha autismo, no dia que estavam todos juntos, pois havia dia que era separado, e um que era algo específico para cada um.
EXTRA!ordinário – Como foi a sua experiência dando aulas para crianças com Síndrome de Down?
Roseane Morais – Quando eu trabalhei na sala multifuncional, não foram apenas crianças com Síndrome de Down, trabalhei com crianças autistas também. No início foi um trabalho bem difícil, porque eles não possuíam só uma síndrome e os pais escondiam isso, sendo que as crianças precisavam de medicação. No momento que a escola descobriu, nós tivemos dificuldade, mas depois foi um trabalho favorável para mim, para eles, para a família e para a escola.
EXTRA!ordinário – Quais são as maiores dificuldades que os pais encontram para lidar com crianças que tem a Síndrome de Down?
Roseane Morais – Dos que eu trabalhei, acho que três ou quatro dos pais buscaram ajuda e me ajudaram, já que eles procuravam e me traziam ideias, e eu também levava para eles, então ficou uma troca de trabalho. Mas hoje, eu percebo que os pais me procuram desesperados, sem saber o que fazer. Não são crianças que eu trabalho, mas são crianças que as pessoas já sabem que eu trabalhei e me procuram pedindo ajuda.
EXTRA!ordinário – De que forma você acha que a escola e a família podem contribuir para a aprendizagem dessas crianças?
Roseane Morais – Esse trabalho é paralelo, junto com o profissional e não deve ficar somente preso a escola. Buscar psicólogos, fonoaudiólogos, procurar ajuda na Universidade, pois tem muitos profissionais que podem ajudar. Então, foi dessa maneira que eu vi muitos pais obtendo esses recursos, esse sucesso, buscando ajuda na universidade.
EXTRA!ordinário – Por qual razão a família escondia as outras síndromes, além da que já era avisada na escola?
Roseane Morais – Porque uma boa parte dos pais não aceitam as crianças especiais, não aceitam dizer que os filhos são especiais.
EXTRA!ordinário – Então, a partir disso, nota-se uma dificuldade. O trabalho com elas dentro de casa seria complicado?
Roseane Morais – Sim. Inclusive, eu tive uma aluna com Síndrome de Down que, no início, me batia e era muito agressiva, fazendo coisas que não esperávamos. Ela apresentava problema de esofagite, e quando o alimento voltava para a boca, ela procurava onde eu estava para jogar em mim. Depois que nós fomos descobrir que ela não possuía apenas a Síndrome de Down, mas também outros transtornos. Então, a partir desse momento, fomos buscando ajuda de psicólogos e de outros profissionais na Secretaria de Educação.
EXTRA!ordinário – Como era a relação dessas crianças na sala? Como os pais de crianças que eram agredidas reagiam ao saber do acontecimento?
Roseane Morais – Nós conversávamos e explicávamos que essa criança era especial, e como seus filhos também eram, de certa forma eles entendiam. Quando nós começamos a perceber que essa outra batia forte e machucava, começamos a trabalhar um pouco mais separados com ela, até que a mesma entendesse os cartazes. Também funcionou através de filmes que eu colocava no computador.
EXTRA!ordinário – Quando você começa em uma sala nova, com crianças com a síndrome, você percebe que diminui a agressão?
Roseane Morais – Sim. Sempre que você vai concluir o relatório dessa criança, você percebe que essa criança mudou, que ela desenvolveu.
EXTRA!ordinário – Você já viu casos em que os pais faziam atividades com as crianças dentro de casa? Como eram realizadas?
Roseane Morais – Sim. Uma mãe marcou muito o início do meu trabalho, que foi essa primeira criança com Down que eu citei. Ela começou a fazer cartazes no quarto da criança, com tarefas, horários e atividades que a menina cumpria.
Como ela não sabia ler, a palavra, a frase e o desenho ficavam na frente. A mãe colocava cartazes pela casa toda e trouxe essa ideia para mim e passei a fazer isso na sala de aula. Então, quando ela ia bater em outra criança, eu mostrava o cartaz e ela passou a entender. Ela é linda, é minha paixão. Até hoje tenho contato.
EXTRA!ordinário – A relação das crianças com pessoas do convívio social delas é afetada de alguma forma pela síndrome?
Roseane Morais – Eu soube como era o convívio de dois ou três, e eram bons. A família é bem próxima, carinhosa e cuidava bem. Mas são aquelas famílias que aceitam, e não aquelas outras que recusam.
EXTRA!ordinário – E no final das aulas, todos conseguiram ser alfabetizados?
Roseane Morais – Essa que eu falei no início, e o que foi para o Paraná. Eram quatro no total, uma conhecia poucas letras e falava muito pouco, e a outra não falava nada. A mais velha só se acalmava com instrumentos musicais, mas quando eu partia para a parte da leitura, ela recusava e começava a gritar. Então, apenas dois foram alfabetizados.

